Memória curta

por Paulo Neto | 2014.10.17 - 00:01

 

 

Olhamos para o Orçamento proposto pelo governo e arrepiamo-nos.

A tal austeridade, a tal carga fiscal, mais impostos nos combustíveis, no tabaco, nas bebidas alcoólicas, um saque de 704 milhões na Educação – já não bastava um ministro trapalhão; na Saúde, na Administração Interna, subida brutal do IMI, etc…

Arrebanhar tudo a que puderem deitar mão; venderem tudo que der lucro e, em 2015, deixar um país exangue e moribundo para quem vier.

Mas a meio da conferência de imprensa, Maria Luís Albuquerque ainda teve tempo para o exercício de futurologia que, como todos bem sabemos e desde Gaspar, tem saído sempre gorado:

“Haverá um excedente primário de 2,2%; o rácio da dívida sobre o PIB descerá para 133,5%; o PIB crescerá 1,5% e o desemprego descerá para 13,4%.”

Pena que os tempos verbais sejam do futuro: haverá; descerá; crescerá…

 

Pagamos todas as consequências dos mais aberrantes actos.

E agora que veio para ficar o problema Espírito Santo, ou melhor, os problemas dos contribuintes causados pelo Grupo BES, já esquecemos a maior fraude de sempre em Portugal: o BPN.

9.710.539.940, 09 Euros. Quase 10 mil milhões de euros. Portugal poucos mais habitantes tem do que 10 milhões…

Um banco que nasceu há pouco mais de 20 anos, da fusão das sociedades financeiras Soserfin e Norcrédito, pertencentes à SLN – Sociedade Lusa de Negócios.

Alguns dos principais nomes de políticos graúdos que, de alguma forma ou modo, tiveram alguma ligação ao BPN são:

José de Oliveira e Costa, a cabeça deste anómalo corpo. Tinha sido secretário de Estado dos Assuntos Fiscais no tempo de Cavaco Silva;

Manuel Dias Loureiro, um braço desse corpo (direito ou esquerdo). Ex ministro dos Assuntos Parlamentares e da Administração Interna nos dois últimos governos de Cavaco;

Daniel Sanches, ex ministro da Administração Interna no tempo de Santana Lopes;

Arlindo Carvalho, secretário de Estado e ministro da Saúde em 2 governos de Cavaco Silva;

Amílcar Theias, ministro do Ambiente e do Ordenamento no governo de Durão Barroso;

Rui Machete, ministro dos Assuntos Sociais com Pinheiro de Azevedo, ministro da Defesa Nacional, ministro da Justiça e vice-Primeiro Ministro com Mário Soares e ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros com Passos Coelho.

Depois de consumada a falência, foi nacionalizado e vendido ao Banco BIC por 40 milhões de euros. E a arqueologia histórica podia continuar… com perguntas do género: De quem é o BIC?

Mas já todos nos esquecemos. Pagámos, pagamos e pagaremos.

Faz parte do Fatum lusíada. E depois vêm dizer que vivemos acima das nossas posses. Quem? O leitor?