Matadouro ou hospital?

    Segundo declarações de um periódico local, uma enfermeira a prestar serviço no CHTV, na Assembleia Municipal de Viseu de hoje, onde integra o grupo de deputados municipais do PSD, teve a coragem de quebrar o sigilo profissional ao qual está legal e eticamente obrigada, para denunciar as irregularidades, constrangimentos e disfuncionamentos que se […]

  • 18:30 | Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2019
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Segundo declarações de um periódico local, uma enfermeira a prestar serviço no CHTV, na Assembleia Municipal de Viseu de hoje, onde integra o grupo de deputados municipais do PSD, teve a coragem de quebrar o sigilo profissional ao qual está legal e eticamente obrigada, para denunciar as irregularidades, constrangimentos e disfuncionamentos que se passam paredes adentro daquele Hospital, nomeadamente no serviço de Urgências.

 
A enfermeira Isabel Fernandes, correndo o risco de um processo disciplinar agravado, não terá querido ser mais “cúmplice” daquilo que na sua prática profissional presencia, depreendemos nós, e denunciou o que se passa nas Unidades de Decisão Clínica onde é posto “o doente mais instável” e o que se passa “no corredor (…) onde nós pomos todos os doentes”.
Por falta de condições nas Urgências e segundo a dita profissional, “na emergência e na UDC, vamos tirando um e colocando outro que está pior”.
Pelos vistos, as pessoas aguardam nas macas em flagrante angústia e padecimento que a morte as liberte do sofrimento, agonizando enquanto aguardam se vale a pena investir ou não na sua salvação.
Sabem que há pessoas que morrem e que, em situações onde temos imensos doentes em maca, muitos vão e vão morrer. Há situações em que é preciso investir e gerir as vagas e há outras em que sabemos que não vamos investir. Onde é que se colocam esses doentes na urgência? Alguém sabe? Eu sei, mas não digo”.
Vai mais longe referindo que “a privacidade é zero naqueles serviços” e naquilo que considera “falta de dignidade” ao referir a “antecâmara” (ocorreu-nos não sabemos porquê a palavra “Auschwitz”): “Quando nós dizemos que este senhor vai ser colocado na antecâmara, porque não vai morrer, no meio de toda a gente e depois morre mais um doente na sala aberta, é uma falta de dignidade. Eu acho que nós não merecemos e que a população não merece”…
Perante a desmesurada gravidade destas afirmações públicas, o mínimo que se deve exigir é o cabal apuramento da total verdade dos factos descritos e a imediata responsabilização de todos aqueles que quotidianamente assistem, calam e consentem no relatado, mas, prioritariamente, deve ser ouvida já a Administração do CHTV.
A ser verdade, perante a impiedade arrepiante do relatado, o Hospital de Viseu arrisca assemelhar-se a um matadouro municipal. Com uma diferença: se neste os “utentes” entram para morrer, em qualquer Hospital entram para viver… pensamos nós.
Após o triste relato ficamos na dúvida até sermos esclarecidos pela ministra da Saúde, ficando a pensar se a humanidade, afinal, mora ao lado, talvez a montante, na morgue.
 
 
 
 
 

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