Longevidade sem qualidade…

por Paulo Neto | 2014.04.09 - 17:43

 

Tem sido um dos argumentos esgrimidos pelo governo para justificar algumas atitudes no tocante a reformas e sonegação de direitos há muito adquiridos: o aumento da esperança de vida.

Na Índia há um sapateiro com 179 anos que trabalhou até aos 122 anos. É o homem mais velho do mundo. E daí?

Em Portugal, a esperança média de vida tem vindo a aumentar desde 1960. Nesta década era de 66,4 anos. Em 2000 era de 79,9 anos e em 2011, segundo o INE, era de 82,6 anos.

O País do mundo com menor esperança de vida é a Suazilândia com 32 anos, seguida de Botsuana, Lesoto, Zimbabué, África do Sul, Namíbia, Zâmbia, Malawi, República Centro Africana, Moçambique e Guiné Bissau. Estes países têm elevadas taxas de HIV/AIDS e uma alta taxa de mortalidade infantil.

O aumento da esperança de vida prende-se com uma melhoria das condições de vida, de trabalho e serviços de saúde, em geral. O aumento da esperança de vida em Portugal determinou que o factor de sustentabilidade permitisse cortar 4,78% nas reformas. Este factor relaciona a esperança média de vida aos 65 anos, em 2006, com a que se obteve no ano imediatamente anterior ao do início da pensão. Se não entender, caro leitor, não se preocupe. Poucos entendem. Salvo quem manda.

O que poderemos começar a entender é que há uma possibilidade de retrocesso destes indicadores, directamente proporcional à redução dos direitos sociais, saúde em primeiro lugar.

Aquilo que parece ninguém querer entender é que todos, todos nós somos os idosos de amanhã e que, aquilo que hoje semearmos amanhã colheremos. O homem é, em geral tão cego, deslumbrado, iludido e néscio que nunca se vê a si próprio como o velho que vai brevemente ser.

Outro problema, e do foro ético, prende-se com aquilo que representa viver muitos anos sem uma saúde digna, sem uma reforma decente, com direitos cortados a esmo a toda a hora, numa solidão confrangedora, muitas vezes abandonado pela própria família, ao Deus-dará… Que vida é essa? A diminuição de serviços no interior do país tem sido, também, uma forte machadada para os idosos. Pela falta de mobilidade, pela ausência de meios materiais, pelo recuo demográfico e desertificação do interior, etc.

Hoje é mau ser-se velho em Portugal. O que não quer dizer que seja bom ser-se jovem. Mas estes, pelo menos, ainda têm a vitalidade, a saúde, o alento e o ânimo para enfrentar as adversidades.

Quanto aos idosos… deixem-se morrer que a CGA até agradece.