E quando se perde a cabeça?

por Paulo Neto | 2014.02.11 - 08:32

Don DeLillo em “Libra” (Sextante Ed, 2013, pág.213), romance que recomendamos vivamente e acerca do assassinato de John F. Kennedy, exprime uma reflexão de um prisioneiro ao ver a execução de um homem esguio, sob a luz de um holofote, com um panamá elegante na cabeça. Transcreve-se com a devida vénia:

O que ele não conseguia esquecer era o modo como o chapéu saltara da cabeça do homem esguio. O estampido surdo da surpresa pesada, o insulto repentino. Mesmo depois de nos convencermos de que já vimos todas as maneiras de a violência surpreender um homem, eis que surge qualquer coisa que nunca tínhamos imaginado. Que força terão as balas de exercer, se conseguem atingir um homem no peito e fazer-lhe o chapéu elevar-se um metro e meio no ar, na vertical? Era uma lição acerca das leis do movimento e uma chamada de atenção para todos os homens, recordando-lhes que nada é certo.”

Este extracto chocou-nos. É vivo, expressivo, emotivo. Quase visualizamos a execução e o chapéu a sair disparado da cabeça. Curiosamente ou não, nunca nos ocorrera tal situação. Este texto pode ser alegoria de todas as violências praticadas mundo fora, seja na Coreia do Norte ou no Palácio de São Bento.

Este chapéu que salta um metro e meio no ar é uma parte do todo que a violência descreve, mas que bizarramente anula a morte do seu portador, o efeito central desta narrativa.

Há violências assim, que nos dilaceram e nos despojam de tudo, num ápice. Violências perpetradas ao abrigo de uma legitimidade conferida pelo voto. Violências democráticas. Tão poderosas como as praticadas sob a mais longínqua ditadura. Aqui, em Portugal, as balas são disparadas pelo pelotão de fuzilamento a quem o primeiro-ministro ordena: “Fogo!”… O chapéu, esse panamá elegante arrancado de uma cabeça, é o símbolo de tudo quanto tem sido súbita e violentamente extorquido aos portugueses.

A tal lição acerca das “leis do movimento” metaforiza plenamente a mudança de rumo; o engodo e o engano; as promessas e os actos; a mentira e a verdade; a ilusão e a realidade.

Finalmente, que colhamos esta sabedoria, esta “chamada de atenção para todos os homens“: “Nada é certo.”

E quem melhor do que nós o sabemos com o gosto tão trágico da prova consumada?