Deixar de ser Homem para ser elemento da tribo

por Paulo Neto | 2016.03.06 - 15:03

 

 

Sou um cidadão atípico. Apartidário, razoavelmente politizado, crítico e sem clube de futebol. Quando os meus conhecidos me perguntam qual o meu team, respondo invariavelmente: “O Esculca Futebol Clube”. Este editorial também vai ser atípico, ou talvez apenas polifónico.

 

Hoje, a 95%, o culto do chefe mostra a orfandade das hostes…

Se no PS a traição paira sempre no ar, o que o torna um partido muito emocionante, no PSD, mesmo que o leader seja um falacioso “desmomoriado”, a fidelidade persiste acima de toda a racionalidade. É do tipo coreano, mas por acefalia, não por medo.

No PCP, os “rostos” persistem inalterados e impávidos por décadas, alheios a modas.

No CDS, o partido mais trauliteiro do espectro político partidário português – na minha óptica pessoal – é até normal os cabecilhas irem a posteriori encontrar o conforto e a fidelidade algures, noutras agremiações, o que bastante revela acerca do seu dinástico substracto profundo (passe a tautologia). Uma colagem evoluída do yellow cab. A sua sucessão foi pacífica, de Portas para Cristas, sem “travestimentos” hormonais.

cab

No BE, alguma alternância e coesão permitem um velejar à bolina sem grandes procelas, numa nau com poucos anos ainda de mar.

Fora da vidas partidárias, de onde sou um resiliente marginal, os meus amigos, com quem privo diariamente, são pessoas do mais variado leque partidário. Íntegras, leais e fraternas.

tri

Sou dos que insistem na peregrina ideia de que os Homens estão acima das ideologias e dos credos. Que a diversidade e diferença de perspectivas nos completa e complementa, sempre nos enriquecendo. Que a cegueira fanatizada das crenças é o primeiro degrau do fundamentalismo irracional. Que todo aquele que encara a vida, afunilando-a, pelo vermelho do Benfica, o verde do Sporting ou o azul do FCP, assim como pelo rosa do PS, laranja do PSD, azul do CDS ou vermelho do PCP, perde muita da liberdade da sua meta-visão, do seu pendor crítico e racional, não condicionado pela endogenia emparedada dos ângulos de visão oblíquos.

olho

Tenho amigos da extrema-esquerda à extrema-direita. Gente de bem, porém.

Nunca a ideologia foi óbice ou obstáculo ao meu bom relacionamento humano.

Só o sendo a traição, a trafulhice, a deslealdade, a imaturidade, a falta de carácter e o oportunismo. “Atributos” que os meus amigos não possuem.

E porém, adredemente por aí se vislumbra, até nas redes sociais, pelo insulto e vileza virtuais, numa vil aliteracia mediática, o ódio clubístico-partidário que tantas vezes é espoletado (ou despoletado) pela expressão de um mero ponto de vista…

A vida, cingida por estes espartilhos, perde alguma da sua fundamental e natural essência.

É que acima de todos estes muretes estão os seres humanos, ricos porque são diferentes, nas suas circunstâncias e nas suas idiossincrasias.

Aquilino Ribeiro, num prefácio dedicado ao seu amigo, o pintor gouveense, Abel Manta, escreve o que cito:

“Desde que tive o subido prazer em conhecê-lo, jamais se passou dia em que deixássemos de ser um para o outro leais e fraternos, primeira cláusula da amizade.”

Se a isto acrescentarmos que a sua relação de amizade foi de meio século, alcançamos os valores essenciais, humanos e solidários, sociais e íntegros que nos estruturam e definem…

Tenhamos presente que os partidos e as claques são muito posteriores ao Homem e ao tribalismo, na sua milenar existência e foram criados para os fazer melhores, mais justos e mais sociais. E não o seu oposto…

tribalismo-tropical

 

(fotos e imagens DR)