Costa 2 – Cavaco 0

por Paulo Neto | 2015.10.10 - 06:36

 

 

 

António Costa parece o presidente da República, fazendo aquilo em que este, redundante e sofregamente falhou. Isto é, reunir com todos os partidos políticos, em busca de “compromissos” e soluções para o futuro imediato do país.

Cavaco Silva no seu encontro ávido com Passos Coelho mostrou aquilo que já só os cegos ignoram: a sua partidarização das funções presidênciais. Mas mostrou mais, a inconstitucionalidade do seu agir.

Pelo contrário, o “derrotado” Costa, num volta-face que está a deixar o PSD e o CDS/PP à “beira de um ataque de nervos, reuniu paulatinamente com todos os partidos com assento parlamentar. Em busca de consensos.

Os críticos da “costaneira” cingem-se aos chavões genéricos da “pasokização” e da “siryzação”, dando assim a Grécia como modelo de todas as viragens políticas europeias. O que não deixa de ser uma irónica e referencial “piada”…

Costa tem um jogo de inteligência nas mãos e joga nele todos os seus trunfos. E só tens duas hipóteses: ou ganha ou perde. Ganha, se reunir a “esquerda” portuguesa (o que quer que tal seja e de forma simplista) num pioneirismo que o consagrará com o retorno do PS à sua matriz original. Perde, se encostar à “direita” (seja o que isso for), colando-se a uma PàF prepotente, sem crédito nem mérito. E cometendo arakiri…

O foguetório da coligação foi de curta dura. Pelo contrário, limando o PCP e o BE as suas até aqui “incontornáveis” divergências com a Europa, a Nato e mais um ou outro ponto, está desbravada a via para uma possível solução coerente (ainda não diríamos coesa) de governação do país.

Assim o decidiram os eleitores ao não conceder a maioria à PàF e ao permitir a Costa ser o “fiel da balança” de uma estabilidade que aqueles não almejam.

Ademais, sem “papões” obsoletos, de Coelho&Portas já conhecemos o alcance das façanhas políticas, ou melhor, já todos sentimos a brutal austeridade do seu agir e a força tumultuosa do seu mentir… Desta nova entrevista probabilidade ainda ignoramos a eficiência e a eventual competência.

Certo é que um governo PàF, desabituado das regras democráticas e vitaminado pela maioria cessante, ao ter que dar provas em minoria, por mais flexibilidade que agora demonstre — num brutal jogo de cintura — arrisca-se, na obrigatória inflexão de 180º, à triste figura do pedinte atrás da esmola, no adro da “esquerda”.

Nesse mesmo adro onde e perante uma união dessa “esquerda”, a coligação nem sairá da sacristia…

Costa busca consensos. Esta inimaginável competência desorientou o quadro político nacional, mostrou mais um falhanço de Cavaco em fim de linha a passar à reforma como o pior presidente da Democracia portuguesa, e, ainda, mostrou que Costa tem mais vidas que um gato, podendo nestes novos desígnios “emprateleirar” a oposição interna e unir a oposição externa, criando um bloco inédito e merecedor do benefício da dúvida de todos os descrentes da política portuguesa.

Sentados no camarote a ver desfilar as tropas, pela primeira vez em muitos anos, sentimos o reacender da esperança. Se é uma efémera ou duradoira luz, os próximos tempos o dirão…