Congressos e vítimas

por Paulo Neto | 2014.02.23 - 21:26

Congressos e vítimas
I.
Este Congresso do PSD foi um espectáculo deprimente em grande parte da sua duração, desde o apelo comovido de Marcelo Rebelo de Sousa, que já é de novo “herói” e putativo candidato à Presidência de Portugal, à beatífica contrição de Santana Lopes, que desde que é Provedor da Misericórdia abandonou o fanado look de playboy para se assemelhar a uma beata encardida, à explicação claudicante de Luís Filipe Meneses acerca da sua derrota e augúrios de 1995, à certeza de Passos Coelho acerca das dificuldades que cada vez mais temos para enfrentar no futuro próximo e à cereja em cima do bolo: ”Volta Relvas que já ninguém se lembra!”, a recuperação do antigo colega da Tecnoforma, o graduado Miguel Relvas.
Este PSD é um número de circo de baixa qualidade. É o rosto e a imagem do seu chefe. Um tipo que vai levar os portugueses ao abismo para, na véspera das eleições, depois de os arruinar e destruir, lhes estender uma mão cheia de rôtas benesses e segurar na queda pela tee shirt esfiapada…
É o que temos. Isto apesar de haver um reconhecimento de que, como afirmou à imprensa Peter Praet, um dos bosses do BCE e acerca do programa de salvação em vigor “O custo social foi muito maior do que deveria ter sido.”
Pois foi, Peter. Ou melhor, Peter, é!
A técnica de Passos Coelho, alicerçada na lusa lendária brandura e fraca memória, passa por uma acção e uma percepção:
Levar os portugueses à miséria para e depois tentar aparecer na derradeira hora, com a margem de manobra arrecadada, em estilo grandiloquente e destemido de seu salvador;
Fortalecer-se na ideia de que a alternativa do PS é confrangedoramente frágil.
Porém, há quem viva de enganos e quem viva enganado. Os portugueses estão fartos de ser enganados e não darão de mão-beijada o perdão a quem os desgraçou. Talvez.
António José Seguro pode não ser, no momento, o lidere da oposição… Talvez.
E aquele que vive dos enganos pode e deve ser condenado por eles. Como sucedeu com o seu antecessor Sócrates.
Ruas, “en grand seigneur” lá aparece no retrato à direita de Cristo, perdão de Passos Coelho. As fidelidades eternas só com a morte se redimem.
Almeida Henriques andou por lá; louvou a actual tutela que tem um sentido diverso da que ele praticou enquanto secretário de Estado e… alguém o viu?
Não vi Duarte Lima nas fotos. Se calhar não o convidaram.

II.
Por sua vez, em França, começa uma ofensiva violenta dos políticos contra os jornalistas.
Ou seja, em vez de assumirem a mediocridade dos seus actos e a sua danosa consequência, atacam quem os critica, quem lhes mostra os podres, quem lhes põe a careca a nu.
Afinal, os jornalistas que deviam pintar tudo de rosa pintaram o real com suas cores: o negro retinto. São uns malfeitores…
Aconteceu com Sarkozy, aconteceu com Le Pen, acontece agora com o patrão da Frente de Esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon. Ou seja, no mais amplo espectro político… Não é vicio da esquerda ou direita.
O risco é grande: ao vilipendiarem quem os criticou, mesmo que só tivesse sido uma parte da imprensa francesa, alastraram o rastilho a toda a imprensa. Talvez isso se pague…
Em Portugal já vimos filmes semelhantes. Em remakes sucessivas. A classe política, já o escrevi, gosta da atenção e da adulação. Mas detesta ser ribalta pela porcaria dos seus actos…
A solução está ao alcance de todos, até deles: actos limpos e boa governação, boas práticas e lisura no agir.
Assim ninguém terá por onde lhes pegar…