As práticas bestiais…

por Paulo Neto | 2014.01.29 - 00:02

É preciso desencadear-se a desgraça para que o coro das lamentações e dos “ai-Jesus” se erga em uníssono das bocas ora mudas.

Os fatais e trágicos acontecimentos que vitimaram os seis estudantes do ensino superior na praia do Meco são o brutal efeito de plurais causas.

– Há mais de duas décadas que a nossa juventude está a ser instrumento de várias espécies de más formações que começam em muitos “lares”, passam pela Escola, em geral, e culminam nos grupos em que se inserem e com quem convivem;

– A ausência de valores que deveriam ser transmitidos pela família, faz de muitos jovens seres humanos entregues a si mesmos, autodidactas nas aprendizagens da vida, sujeitos às influências boas e más que o “ao Deus-dará” propicia;

– A escola, por seu turno, aviltada como tem sido nos últimos anos por governantes idiotas, deixou de ser porta para a vida para se tornar num conceito anquilosado, obsoleto, num lugar de obrigação, quase castigo e punição, proporcionando, muitas vezes, um Ensino que os jovens recusam, repudiam e renegam;

– Os pais – e falo sempre em geral – abdicaram de dar Educação, presos à sua tarefa sobrevivente;

– O mundo exterior em que nascem e se criam é um exemplo de negatividade, más práticas, mentira, vileza, corrupção, demagogia, “canibalismo”. Os exemplos são pouco modelares;

– Os valores que são transmitidos centram-se no egoísmo, no consumismo, na amoralidade, no efémero e no ligeiro. Por vezes, ainda, na bestialidade nua e crua;

– Nada é sólido, duradoiro, persistente, resistente, nesta era do descartável. Os próprios sentimentos nascem e mirram atrofiados;

– Os divertimentos proporcionados por uma sociedade decadente e moribunda são os jogos electrónicos, os vídeos de uma inaudita violência e os filmes onde o vilão é sempre o mau da fita. O gangster, o dealer, o chulo, os lobos de Wall Street…

– Mesmo para a infância, os brinquedos são monstros, mutantes e aberrantes;

– Nos ensinos básico e secundário registam-se confrontos,  bulling, toxicodependência, exclusões, marginalizações e outros tipos de agressão, a docentes inclusive.

E eis que um dia, na universidade, ao abrigo legal das tradições seculares irremediavelmente desvirtuadas e permissivas, mudam os actores, mudam os actos, os enredos e as calamidades acontecem. Então todos despertam para uma realidade em que não há inocentes vítimas mas anuentes cúmplices do estado a que se chegou.

Toda a sociedade não afectiva é geradora de violência. Admiram-se agora do que todos nós porfiámos em criar…

Citamos Brecht? “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Um jovem que olhe de frente o mundo que o rodeia, o que vê?

Quais as suas expectativas futuras? Como vão ser os seus próximos 20/30 anos? Em que estado está o planeta que lhes deixamos de herança? Porque não hão-de eles estar muito zangados, desencantados, desiludidos, pois lhes roubámos a vida, as expectativas, os sonhos, o futuro?

Andamos há décadas a semear ventos e queremos colher bonanças?

Desta lixeira em que o mundo se tornou queremos tulipas, lírios e cravos a desabrochar nos canteiros da imundície?

Deixemo-nos de hipocrisias e assumamos a nossa parte da culpa em tudo o que de muito grave ocorre em redor. E que é, em sentido lato, consequência de uma sociedade de cobaias alheadas, disfrutando seus comodismos, a assobiar para o ar modinhas cacofónicas, fazendo de contas que este purgatório é a quinta-essência de um paraíso de Babel…

Neste domínio, nenhuma das ocorrências dos últimos tempos tem desculpa.

Tem é muitos culpados.