Apocalypse Now!

por Paulo Neto | 2015.08.28 - 10:26

 

 

O leitor está a imaginar-se a deixar os seus haveres, a sua casa, a sua terra, o seu país e a entregar-se nas mãos de passadores clandestinos ou a iniciar uma longuíssima marcha, a pé, até uma fronteira que o acolha?

Não? Eu também não.

E contudo, esse êxodo maciço é a realidade quotidiana de multidões de milhares em fuga, lutando por preservar o seu derradeiro bem: a vida.

 

Hoje, numa autoestrada austríaca foi encontrado um camião frigorífico abandonado. Lá dentro, a sua macabra carga compunha-se de 60 mortos. Refugiados que deram os seus últimos haveres a um “serial killer” para os conduzir à salvação.

Esta madrugada afundou-se mais uma frágil embarcação no Mediterrâneo. Transportaria aproximadamente 5 centenas de refugiados. Salvaram-se (?) 300.

 

Grande é o desespero, imenso o pânico que induz estes milhares de seres humanos a fugir das suas terras buscando a sobrevivência.

Esta política do apocalipse, do terror, serve a quem?

Em primeira instância, serve aos senhores da guerra que e num clima de brutal instabilidade encontram sempre o ambiente propício aos macro negócios, à agiotagem e especulação desenfreada geradora de milhares de milhões.

Depois, serve os movimentos jihadistas, que pela sua política de ferro e fogo impelem para a Europa e para a morte todos os opositores ao seu fundamentalismo religioso (?). E ademais, aproveitam para infiltrar os seus quadros terroristas.

Serve também os movimentos radicais de direita que bebem nesta desgraça da humanidade a seiva vital para reincendiarem seus ódios a pretexto da “invasão” de que os seus países estão a ser alvo e objecto.

Estranhíssimo é o silêncio ensurdecedor da UE e dos seus orgãos de decisão. Inusual é o mundo “civilizado” (onde fica?) não delinear uma estratégia de erradicação da causa deste letal fenómeno, assim como não determinar medidas para obviar ao seu efeito, este massacre diário de milhares de homens, mulheres, crianças, idosos… vítimas sem voz nem rosto de um mundo ebuliente que referve as suas iras num dantesco caldeirão.

 

Hoje, ninguém sabe aquilatar as consequências de amanhã. E este “amanhã” não é um futuro retórico. É mesmo o que vai suceder no sábado, no domingo, na próxima semana…

Estamos perante o maior retrocesso civilizacional desde a IIª Grande Guerra. A Europa enquanto União parece não ter resposta para nada. Estará esgotada? O que não se esgota são os conflitos permanentes entre os seus Estados membros. E enquanto no seu próprio seio se delapidam todos os direitos sociais e laborais, se cavam as assimetrias, se vulnerabilizam os Estados mais frágeis, se instalam disfuncionalidades que põem em causa a sua estabilidade e mesmo sobrevivência, nesta endogenia cega, espécie de guerrilhas de Alecrim e Manjerona, parece não haver olhos nem ouvidos para quanto se passa no continente africano e no médio oriente, tsunami em formação, cuja avassaladora onda corre, de vez, para varrer os últimos vestígios de uma sonhada hegemonia europeia e de um inclusivo mundo melhor