Ambição e ganância

por Paulo Neto | 2014.01.19 - 11:16

“Hamlet – (…) De quem é esta cova, senhor?

1º Coveiro – É minha.

Hamlet – Creio, realmente, que seja tua, porque tu é que estás enterrado nela.”

(WS, “Hamlet”)

 

 

Proveito, onzena e usura ou avidez, aspiração? Ultimamente, mais das vezes, a avidez do proveito.

O exercício de procurar o significado inicial de certos vocábulos não é fastidioso, antes proveitoso.

Se ambição, outrora, significava correr ou cercar em volta, que era o que faziam os pretendentes aos lugares de destaque da república, correndo toda a cidade, cortejando uns e outros e captando as boas graças de quantos podiam ter voto, cobiça vem do latim “cupiditas”, de “cupio” ou desejo.

Enquanto a ambição se refere ao desejo/paixão desenfreada de obter honrarias, cargos, dignidades, a cobiça concentra-se no desejo de possuir dinheiro ou bens materiais, numa sofreguidão desembestada de riquezas, geralmente adquiridas à “má fila”.

Há ambiciosos que gastam com largueza para alcançar seus intentos.

Os nossos políticos – no mau sentido da política, hoje completamente abastardado – são enquadráveis nas duas categorias.

Alguns, na sua mais pérfida e despudorada avidez passam por cima de tudo: lealdade, princípios, rectidão, honestidade, lisura, carácter, usando, ainda para substantivar o acto, do contraponto do altruísmo, caindo no baixo cinismo, impudência e hipocrisia.

Cedo se enrodilham nas teias que tecem, tolhendo-se e aos seus actos.

Outros pegam na pá e começam a cavar a terra mole, com agilidade, nem percebendo que estão dentro da cova que abrem e que a terra lhes começa a tombar em cima.

Existirá alguma analogia entre ambição, ganância e missão?