Acerca das “festarolices” viseenses – breve apontamento

por Paulo Neto | 2016.05.23 - 10:02

 

 

O povo precisa de diversão. E de trabalho. E de melhores condições de vida. E de menos impostos. E de uma gestão autárquica que dê aos impostos cobrados um investimento também de cariz social. Emprego. Igualdade de oportunidades. Erradicação da pobreza. Apoio à 3ª Idade. Cuidados infanto-juvenis. Estruturas de saúde para todos. Diversidade desportiva e cultural. Fixação de jovens. Atracção de investimento. Mais riqueza. Trabalho…

Posto isto, tudo é legítimo. Quando o essencial é cumprido, o acessório é desejado.

Porém, centrar uma gestão autárquica a mais de 80% na “festarolice” e a 20% na mais lata abrangência social e profissional, desequilibra os pratos da balança. Um executivo não é um empresário artístico ou um promotor de vinhos, antes um gestor sensato, polifacetado e ponderado da “coisa pública”. Será?

No sábado à noite desci ao centro da cidade, em toda a sua lata envolvência deserta. Mas aí, no Mercado 2 de Maio, a festa era rija e o “povo” era muito. Comia, bebia e ouvia música. A rodos. Subi ao “centro histórico”. Bancas improvisadas vendiam vinho e petiscos, mais que nos estabelecimentos de porta aberta e licenças pagas. Havia boa música no largo da Sé e junto à porta da Muralha. Muita gente nova, copo na mão e embalo no corpo. Fundamental para descontrair, a diversão dá qualidade à vida.

E nas freguesias?

Abraveses, Bodiosa, Calde Campo, Cavernães, Côta, Fragosela, Lordosa, Mundão, Orgens, Povolide, Ranhados, Ribafeita, Rio de Loba, Santos Evos, S. João de Lourosa, S. Pedro de France, Silgueiros, União das Freguesias de Boa Aldeia, Farminhão e Torredeita, de Barreiros e Cepões, de Coutos de Viseu, de Fail e Vila Chã de Sá, de Repeses e S. Salvador, de S. Cipriano e Vil de Souto?

E nos subúrbios da cidade? E não precisamos de fazer um raio de 100 metros do Largo D. Duarte… O que se passa além de nada?

Claro que a “festarolice” tem sítios próprios para se exprimir e claro que não se pode expandir aos 507 km2 de área do concelho. Tão pouco aos seus 99.274 habitantes.

Aliás, mais de 95% destes servem apenas para pagar o divertimento de menos de 5%.

Saia o leitor da sua zona de conforto, à noite e comprove o que refiro.

E para concluir, como estamos de desemprego (muito mais de 5.000)? De pensionários (muito mais de 21.000)? De cidadãos portadores de deficiência (5% da população residente)? (Números optimistas apontados no Diagnóstico Social do Concelho de Viseu – CMV).

Quais as respostas concretas da autarquia?

Dos quase 100 mil habitantes do concelho, aproximadamente 70 mil vive em Viseu, nos subúrbios. Por cada 100 jovens, residem em Viseu 122 idosos, dos quais 19% têm mais de 65 anos. 50% dos habitantes têm o ensino básico. 20% não tem quaisquer habilitações. 14% tem o secundário e 15% o universitário. 20% das 37 mil famílias é composto por 1 pessoa (INE).

Qual o número de empresas insolventes no concelho? Qual o número de novas empresas criadas? Qual a taxa de ocupação da Zona Industrial do Mundão? Qual o número de comércios fechados na cidade? Qual a exacta taxa de desemprego jovem não “mascarada” pelas manobras precárias? Qual a taxa de abandono escolar?

E etc., é um nunca mais acabar de dados mais ou menos exactos que nos diz que há muito a fazer.

Mas, efectivamente, disso não temos quaisquer dúvidas, é mais fácil e mais vistoso investir nas festanças.

Porém, seria interessante reflectirmos que nelas está presente 1,1% da população… E os outros 98,9%?