A lusa paixão pela pintura…

por Paulo Neto | 2014.02.09 - 12:07

Nunca imaginei que houvesse tantos portugueses amantes de arte pictórica. Soube-se agora. Temos um património histórico a cair aos bocados e, em alguns casos e são muitos, em vias de se perder. Irremediavelmente. Para não ir mais longe, lembro o Convento de Mafra, onde os danos que o tempo causa e a parca manutenção, estão em vias de destruir carrilhões únicos no mundo e outras estruturas, apesar do mecenato privado. Porém, poucas vozes se erguem acerca desta e centenas de outras realidades análogas.

O Museu Grão Vasco tem em espólio seis ou sete dezenas de excelentes Columbanos (entre milhares de outras fabulosas peças). Alguém fala deles ou, tirando meia dúzia de peritos, sabe sequer que existem ou quem foi Columbano?

As telas de Miró compradas por Oliveira e Costa sabe-se lá a quem para branquear dinheiros de novos-ricos, são um acervo artístico importante. Miró nunca foi um pintor de 1ª água (gosto desta expressão), mas agora para marcar agenda política, parece ser a salvação da cultura portuguesa.

Mas a cultura portuguesa começa e acaba em Miró? Um imenso património arquitectónico a ruir; centenas de grandes pintores e escultores de quem não se fala nem se vão ver em exposições; uma literatura ignorada, até nas Escolas; o cinema, o teatro, o bailado, a música portuguesa? Que incentivos?

Uma secretaria de Estado, a da Cultura, que não tem dinheiro para mandar tocar um pobre, de um país onde cada vez há mais pobres que já nem têm esquina para tocar e mais políticos que não têm tacho para refocilar, é o olho do furacão mediático dos Mirós do BPN. Se os portugueses andassem preocupados com o julgamento de quantos criaram este buraco sem fundo…

Vende-se o país a retalho a brasileiros, angolanos, chineses, colombianos, venezuelanos… e erguem-se em bandeira de indignação umas telas, 40 milhões de telas, de um pintor catalão… Resume-se a isto a essência adjectiva do ser português que se zangou desde Afonso Henriques com o ser substantivo…

Todo este bruáá tem a vantagem de desviar a atenção de uma realidade prementíssima. Este governo não acerta uma e está a guardar na manga um afrouxar do garrote para as próximas eleições (europeias, legislativas, presidenciais, a uma média de uma por ano).

Este governo aniquilou a economia portuguesa, anulou o estado social, baixou a patamares inacreditáveis pensões e salários, elevou a fasquia dos desempregados ao milhão, determinou a emigração de quase 200 mil portugueses, na sua maioria jovens, para não padecerem de fome ou de frustração… e etc.

E falamos de Mirós?! Haja pachola!