“A Grande Farra”, 1973, Marco Ferreri

por Paulo Neto | 2014.03.20 - 16:48

Toda a festa é um momento de privilégio. Busca-se uma dissolução temporária, num frenesim, gozo ou vertigem. O apogeu do festim deu-se na decadência da Antiguidade grega e romana.

A festa não visa anunciar uma Ordem Nova. Não é a Revolução. É um hiato dentro da existência social conferindo uma razão de ser à trivialidade quotidiana. Há sociedades muito festivas e festeiras. Também, deste alegre modo se tenta promover uma ideia, uma pessoa, um conceito, frequentemente sob uma atitude paródica. Numa festa tem-se a ideia de que estamos todos fundidos em torno do festejado, mas se não proporciona agressividade, muitas das vezes não propõe também amizade e diálogo.

Feira de vaidades ou oportunidade da « aderência », porque todos, supostamente, são movidos pela mesma força anímica, pelo mesmo turbilhão onde se destravam desejos reprimidos até e por intermédio da farsa.

Inscreve-se a festa, com todo o seu aparato, mise-en-scène e cosmética num tempo circunscrito e curto da existência. Mesmo pela impossibilidade física da sua constante fruição ou manutenção da máscara que – noblesse oblige – a festa exige e propicia. A festa tem sempre um tempo : o do presente, como presente é o prazer, onde o prazer passado mal se recorda e o futuro poderá não existir. Na festa, a despreocupação traja a rigor, assim como o atordoamento. Os custos da festa suspendem-se no seu decurso. São investimentos no prazer ou no marketing do amanhã. Efémeras, as festas, devem comportar objectivos muito pragmáticos dos seus organizadores. Não são já um acto de consenso social mas sim um acto de projecção social, de visibilidade e de distração da realidade.

O filme « A Grande Farra » de Marco Ferreri, apresentado em 1973 é uma metáfora bestial da « festa ».

Reunindo um leque notável de artistas encabeçado por Marcello Mastroianni, Hugo Tognazzi, Michel Picolli, Andréa Ferréol, Philippe Noiret… mostra-nos uma sociedade empobrecida pela abundância, decadente, moribunda, desiludida, cínica, impúdica. Gente da maior respeitabilidade, oriundos de classes sociais abastadas atiram-se ao extremo da licenciosidade, do escândalo e do exagero. É uma história de Rabelais e de Sade misturados no deboche onde os excessos alimentares e sexuais (é tudo carne) se tresvairam.

« Vous êtes grotesques ! Pourquoi vous forcez-vous à manger si vous n’avez pas faim ? atira a jovem loura enojada ao abandonar a festa. Marcello afirma « Il n’y aucune fantaisie dans cette histoire, ils ont choisi la façon la plus grossière de mourir ». O sórdido de braço dado com o sublime, dantesco, numa bulimia sem limites.

A questão é : até que ponto se pode assistir, participar, aceitar morrer em festa pelo cometimento de todos os excessos ? Este filme, na sua sordidez é uma tragédia. Mas a vida humana não se condimenta dela ? Ou só de fábulas morais ? Gozar na merda, na copulação, na masturbação e nos peidos sonoros de um Picolli enfastiado pode não ser verdadeira poesia. Mas sobre a verdade da poesia já se escreveram muitos tratados. E não houve consensos…

« A Grande Farra » trata de paixão devoradora. Mas assume-a. Enquanto as festas actuais tratam do glamour oco, vazio, cínico, inconsubstanciado e não assumido. Uma festa assim é uma provocação, um desafio, uma irreverência, uma assunção de meia-idade, tédio e solidão. Foi uma queda no vazio e um soco no estômago. Hoje são uma ostentação da loja dos 300 e desperdício político.

FARRA

Desde os primórdios, a festa era a expressão lúdica do sentimento de uma mesma comunidade. Hoje permite-nos a aproximação ao núcleo dessa comunidade, o fazer parte da multidão, de uma multidão na confrontação do nada, ou na aproximação à desordem pura do homem na sua natureza ou seu natural. E aqui, encontramos a analogia entre « A Grande Farra » e os festins hodiernos : a negação do tempo social, o espectro da auto-destruição, a pulsão freudiana de Tanatos e de Eros. Ambígua e destrutiva, veste-se de boas maneiras, fatos de bom corte e decotes profundos com sapatos de salto em estilete. Por baixo, os corpos degradam-se e aviltam-se na exigência carnal, seja de sexo ou de um naco de vitela.

A festa, em derradeira instância, atravessa numa fresta o limiar do júbilo e instala-se num estertor do pânico travestida de irreverência. Talvez seja a última…