Dia Internacional da Mulher

por Sofia Amaro | 2014.03.08 - 14:13

Hoje comemora-se o Dia Internacional da Mulher numa sociedade marcada pela desigualdade de géneros, e ainda subordinada ao conservadorismo e tiques reacionários, que têm ameaçado nestes últimos anos os valores fundamentais dos direitos da mulher. Um claro exemplo de retrocesso civilizacional foi a recente proposta de lei do governo conservador de Mariano Rajoy, que restringe o aborto em Espanha, ou a ausência do nosso governo de iniciativas relativas à igualdade de género. Isto numa semana em que se soube que uma em cada três mulheres da União Europeia (UE) foi ou será vítima de pelo menos um episódio de abuso sexual, físico ou psicológico (o maior estudo sobre violência de género alguma vez realizado na UE pela Agência para os Direitos Fundamentais – FRA), revelando a persistência do problema em que se salienta o género: 97 por cento das vítimas de violência sexual, física ou psicológica são mulheres e, nos doze meses anteriores à realização do estudo, 3,7 milhões de mulheres foram alvo de violência sexual e 13 milhões de mulheres foram vítimas de violência física. Urge, por isso, revermos os fundamentos da nossa sociedade. Infelizmente, constato que numa aparente paridade, a mentalidade instalada continua a subestimar a capacidade das mulheres, quando delas também depende. E se as mulheres parassem as suas actividades incluindo as domésticas, sem falar no trabalho de braço feminino nas áreas mais rurais, verificar-se-ia um colapso total de produtividade.

Os libelos misóginos estão enraizados na nossa humanidade apesar do discurso conferir e enquadrar juridicamente esta suposta igualdade. Basta ver a percentagem de mulheres no panorama político normal, vistas de soslaio e com um ar de prestância, para constatar que raramente são levadas a sério. Até pelas próprias, dependentes do seu papel diminuto e habituadas na sua educação a cercear o olhar e a viver sob o espectro varonil da história. Resquícios da impostura machista do Estado Novo. Ainda me lembro de ouvir Maria Lourdes Pintasilgo, na época em que estava ligada à rede Lien – Graal, dizer como as hostes masculinas faziam questão, quando o assunto era polémico, de a tratar de soslaio como “senhora”. Estas são as particularidades de numa sociedade falocrata. Para não falar de outras instâncias como por exemplo a literatura, com a maior parte dos prémios literários a laurear a masculinidade por excelência. Aos tartufos literários ouvi as razões mais disparatadas como: não são constantes, a volubilidade hormonal, celeumas e afins. Esta semana enquanto passava os olhos pela imprensa, nacional e internacional, sublinhando que a diferença ainda é mais acentuada em alguma da nossa imprensa, notei que o espaço de opinião, sem falar do resto, é dominado por 90% de homens. Mulheres que escrevem diariamente, lutam como amazonas, tentando equilibrar a vida privada e a vida pública, verdadeiras fortalezas que souberam resistir ao domínio dos homens durante a história, mulheres etruscas. São estas as mulheres que nos constroem como foram no passado as sufragistas, a Adelaide Cabete, a Ana de Castro Osório, as três Marias e tantas aqui não mencionadas. E apesar de toda a história, ainda somos colocadas numa edícula de contemplação ou, num desespero, nos abrigos que permitem que uma mulher espancada possa chegar viva até ao final do dia. Os nichos, como Cate Blanchett denunciou durante a cerimónia dos Óscares.

Não faço aqui a apologia da misandria, porque eu defendo acima de tudo a igualdade inscrita nas convenções internacionais, mas dirão porque é que não existe um Dia do Homem e eu respondo com as palavras exactas de Helena Vasconcelos na sua obra Humilhação e Glória:

“Haverá sempre quem duvide da importância dos “estudos femininos” como há sempre quem pergunte com uma ponta de sarcasmo, se não deveria haver um Dia do Homem, uma vez que existe um Dia da Mulher. A questão é simples: a história foi escrita (gravada) por homens que amiúde e deliberadamente puseram as mulheres de lado, não lhes permitindo a visibilidade que (muitas delas) mereciam, mereceram e merecem. Às mulheres foi barrado o acesso à educação e à cultura e muito poucas conseguiram “furar” esse persistente boicote.”

Helena Vasconcelos, “Humilhação e Glória”, ed. Quetzal, Lisboa, 2012, p. 92.

 

 

Sofia Amaro nasceu em Mirandela, Trás-os-Montes. Licenciada em Filosofia, pela Universidade Nova de Lisboa, traça o seu percurso académico na área das Relações Internacionais e envereda por um mestrado em Pedagogia na Universidade de Liége, Bélgica, país onde reside. Tem várias obras transversais à escrita, desde o cinema de animação, como argumentista e guionista do filme A Estrela de Gaspar para a Animanostra /RTP, à banda desenhada para a Pública (suplemento do Jornal Público) e Beraca em co-autoria com Pedro Brito, assim como outras publicações. A última como jornalista na revista belga La Revue Nouvelle. Tem uma relação umbilical com o teatro, dedicando-se várias vezes à leitura de autores como David Lescot ou como autora da peça A Cartografia do Medo. Recentemente publicou O Umbigo de Deus laureado com duas menções honrosas, o Prémio Literário Manuel Teixeira Gomes e o Prémio literário Alves Redol, e em breve termina um novo romance. Como um pêndulo continua a escrever sobre os indícios humanos, a natureza e a relação entre as esferas como um derradeiro sinal de metamorfose.

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