Já posso tomar uma malga de café e comer morangos?

São 05h32. Ainda não sei se estou na hora velha ou nova. Os pardais já chilrearam e emudeceram cansados e os meus olhos, fatigados, dão estranhas lágrimas às letras.

  • 19:08 | Domingo, 29 de Março de 2020
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In “A Conversa de Bolzano”, estou mesmo naquele longuíssimo diálogo entre o conde de Parma e Giacomo. Que grandes conversadeiros. O Sándor, por vezes enrodilha-se nesta profusão de funções catálises que estagnam a narrativa. Uma espécie de minuete cheio de salamaleques com os cabelos muito empoados… Haverá, musicalmente, um crescendo interminável de um solitário Stradivarius? Assim, este lento, longo, elaborado e barroco diálogo… O esboroamento do nuclear (função, claro!). A Agustina fazia a “coisa” muito melhor. Perdia-se para se encontrar.

Modiano começa “La place de l’étoile” com esta história judia…
“Au mois de juin 1942, un officier allemand s’avance vers un jeune homme et lui dit: Pardon, monsieur, où se trouve la place de l’Étoile?
Le jeune homme désigne le côté gauche de sa poitrine.”
Estamos perante um clímax do qui pro quo. Ou uma isotopia de um inconsciente perseguidamente recalcado? Pânico? Ou humor negro?

E volto ao “Equador”, de Michaux, que é um portentoso cínico… “Leio muito mal, sempre a rejeitar, com ódio, recusa e má-fé.” O princípio (ou o fim?) de “A angústia da influência”, de Bloom. Os grandes escritores não lêem ninguém. São imaculadas virgens das letras d’outrém hibernados em Cafarnaum. Bah! Chegar porfiado ao lugar para perceber que não é ali. Não há lugar. O lugar nunca existiu… A via sacra nuancée de Sísifo. Mas sem o calhau às costas. Os deuses nunca mais morrem. A originalidade é o verbo divino e a parábola um mero ziguezague alucinadamente messiânico.


Já posso tomar uma malga de café e comer morangos? São 05h32. Ainda não sei se estou na hora velha ou nova. Os pardais já chilrearam e emudeceram cansados e os meus olhos, fatigados, dão estranhas lágrimas às letras. Há pior choro? O do pathos ou o da fadiga? E a fadiga não será uma forma breve do sofrimento? Um soçobrar de um sentido… Nunca usamos óculos para os ouvidos, para o nariz, para os dedos, para as gustativas. Isto é sinestésico?

Bom dia! É domingo. Como não podemos nem devemos ir à praia mais próxima, vistamos o maillot e exponhamos à solar vitamina D, no quintal, jardim ou varanda o pálido tronco nu, emergido da longa noute invernal.

Ah, as noites d’outrora…

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