Elogio bucólico do amola-tesouras

Percebe-se a claridade do céu pelo som refulgente da gaita de um amola-tesouras.

  • 22:11 | Segunda-feira, 04 de Maio de 2020
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Sábado, dia de descanso intermitente. A rua está silenciosa porque se vive em pandemia e a manhã mal começou. Há-de ser um dia de sol, raro nas últimas semanas, mas, para começar, tem o frémito negro de um conto de Mary Shelley, que estou escutando.

Percebe-se a claridade do céu pelo som refulgente da gaita de um amola-tesouras. Peço-vos que o imaginem a deslizar a mão esquerda na boca enquanto a direita conduz a bicicleta, onde uma engenhoca de rodas e correias põe a girar a pedra de afiar. Para esse efeito, basta que alguém o chame e, sem saber o preço, lhe entregue as facas e tesouras, contra as quais andou anos a reclamar na pressa da cozinha.

Quem lhe confiar, vamos supor, uma dúzia e meia de facas e duas tesouras da poda, não regressa à fantasia lúgubre de Mary Shelley, mas ganha um curioso impulso neo-realista, no qual o presuntivo explorador se descobre explorado.

O pobre ciclista, nos vinte minutos em que, tranquilo, arrancou chispas pouco homéricas dos gumes rombos, obteve o irrefragável direito capitalista de solicitar, com humildade, sessenta e cinco euros pelo trabalho. Agradece. Arruma a engrenagem que o mantinha a pedalar no sítio, ajeita o boné, preto como o resto do vestuário, e toca outra vez a alegre gaita, que acorda os cães e os faz ladrar sem ideologia nenhuma.

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Publicado em Cultura