O título deste artigo é tomado de empréstimo ao mais recente livro de Leticia Sala, Dame veneno que quiero vivir: Skincare, bótox, miedo a envejecer y linaje femenino, publicado pela Anagrama em 2026. É um livro que se lê de um fôlego e que nos confronta com uma pergunta desconfortável: o que acontece quando nos olhamos ao espelho, descobrimos uma nova ruga e sentimos que há nela alguma coisa que precisa urgentemente de ser corrigida? Vivemos sob um novo imperativo estético. Já não basta ter um corpo magro, apresentado como sinal de estatuto social, sofisticação e autocontrolo. Exige-se também uma pele lisa, luminosa e aparentemente imune à passagem do tempo. O rosto tornou-se um território de vigilância permanente. Esta reflexão cruza-se com o artigo das jornalistas Helena Bento e Joana Pereira Bastos «Obsessão pela cirurgia estética cresce entre os jovens», publicado pelo Expresso em 20 de agosto de 2026, sobre o aumento da procura de cirurgias e procedimentos estéticos por pessoas cada vez mais jovens. Nesse trabalho, o cirurgião plástico Tiago Batista Fernandes afirma:
“As pessoas querem um rejuvenescimento em idades cada vez mais precoces. Já recebi raparigas com cerca de 20 anos a pedir um facelift, cirurgia que antes só era procurada a partir dos 50. Já atendi miúdas menores que querem fazer botox.”
É neste contexto que devemos interpretar fenómenos como as chamadas Sephora Kids: crianças entre os 8 e os 12 anos que adotam rotinas complexas de cuidados da pele, utilizam produtos concebidos para adultos e partilham essas práticas nas redes sociais. A preocupação com as rugas começa, assim, antes ou ao mesmo tempo que a acne. Importa deixar claro que cuidar da pele, proteger-se do sol ou recorrer a um procedimento estético não é, em si mesmo, condenável. Cada pessoa deve poder decidir livremente sobre o seu corpo. A verdadeira questão é outra: até que ponto são livres as escolhas realizadas num contexto que associa juventude a beleza, competência, sucesso e valor social e que apresenta o envelhecimento como decadência, negligência ou fracasso pessoal? Cuidar da pele não é o mesmo que combater a idade. O problema começa quando o cuidado se transforma numa obrigação e quando cada ruga passa a ser entendida como uma falha que exige correção, despoletando e perpetuando uma espécie de tirania estética.
A indústria mundial dos cuidados da pele movimenta milhares de milhões de dólares e continua em rápida expansão. Perante este crescimento, importa questionar de que modo as estratégias comerciais e os conteúdos difundidos nas redes sociais estão a antecipar a entrada de crianças e adolescentes no mercado da beleza.
Estamos perante uma forma de violência estética, a imposição, nem sempre explícita, de que o corpo, o rosto e a pele devem adequar-se a um determinado ideal. Uma violência particularmente dirigida às mulheres, ensinadas desde muito cedo a vigiar o próprio corpo e a recear os sinais visíveis da idade. Vivemos numa sociedade “adolescêntrica” que exalta a juventude e procura prolongá-la indefinidamente. O uso estético da toxina botulínica massificou-se. Organizam-se botox parties e promove-se o chamado baby botox, apresentado como uma intervenção preventiva em rostos onde as rugas ainda não existem. A toxina botulínica tem utilizações clínicas e estéticas reconhecidas, mas não deixa de ser um medicamento sujeito a riscos e que deve ser administrado por profissionais qualificados. Para além da segurança clínica, devemos discutir a normalização de intervenções cada vez mais precoces e a ideia de que prevenir o envelhecimento significa começar a combatê-lo antes de ele ser visível. Vivemos também um paradoxo: o rosto envelhecido é censurado por alegadamente revelar desleixo ou falta de autocuidado. Mas o rosto profundamente intervencionado é igualmente julgado e associado à vaidade, ao narcisismo ou à incapacidade de aceitar a idade. Sobretudo para as mulheres, parece não existir uma forma socialmente correta de envelhecer.
É, por isso, relevante que as plataformas digitais comecem a ser responsabilizadas pelos efeitos que os seus modelos de funcionamento podem produzir sobre crianças e adolescentes. A restrição dos filtros que alteram os traços faciais constitui um passo importante, mas insuficiente. A questão não se resolve apenas com novos mecanismos tecnológicos, exige educação para os media, literacia sobre a imagem e uma representação muito mais diversa dos corpos e das idades. A substância ativa do Botox é uma toxina botulínica. Mas o verdadeiro veneno que importa combater é outro: a ideia de que envelhecer nos retira beleza, dignidade e valor; a ideia de que o tempo deve ser apagado do rosto para continuarmos a ser socialmente aceites. Não deveríamos ter medo de parecer ter a idade que temos.
José Carreira