As Cotas

Colar o movimento à Igreja e à fé é populista e vulgar. Os dois lados não se comunicam, nem se complementam, salvo se as conservadoras, em vez de esclarecer quiserem confundir. Trazer os "valores cristãos" e os "propósitos de Deus" para a conversa é coisa de cegueira social e devoção azeda, bastante para alvoroçar o beatério.

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  • 18:03 | Segunda-feira, 31 de Agosto de 2026
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Embora saído das entranhas mais cristalizadas de um conservadorismo extremado e mal resolvido, o Movimento das Mulheres Conservadoras, enquanto associação cívica, não merece contestação. Não o digo por cálculo político, mas por realismo e juízo. O associativismo é livre em Portugal e cada um cria os albergues que bem entender e serve-se com os talhares que mais aprecia. O que se pode discutir é a sua pertinência e relevância.

Lorena Gato, apresentada como embaixadora do movimento, desconcentrou-se, atropelou as vísceras, e escreveu, inclinada na ladeira do equívoco:  “Quando uma mulher conhece o seu propósito em Deus, ela deixa de ser um reflexo da cultura e torna-se uma referência. O mundo muda através de leis, mas as nações são transformadas por mulheres que constroem lares, formam caráter, transmitem valores e permanecem firmes na verdade.”

Credo! – Vociferei, espolinhado nas secreções – Se as mulheres fazem tudo isso, constroem os lares, moldam o carácter dos filhos, transmitem os princípios, garantem a rígida moral da família e, alongando os braços maternos, ainda transformam as nações, começo a ficar genuinamente preocupado, indignado até, com o papel que fica reservado aos homens. O que é que lhes sobra? Cortar a relva? Segurar o comando da televisão? Aprovisionar a despensa? Comprar preservativos?

Se a vaidade e a presunção dessem créditos…


São afirmações destas, destemperadas e preconceituosas, que dizem tudo sobre a mesquinhez do movimento e sobre o seu horizonte parado. Tudo que se acrescentar em comentário é chover no molhado, dar réplica ao que não justifica, alimentar a inutilidade.

Colar o movimento à Igreja e à fé é populista e vulgar. Os dois lados não se comunicam, nem se complementam, salvo se as conservadoras, em vez de esclarecer quiserem confundir. Trazer os “valores cristãos” e os “propósitos de Deus” para a conversa é coisa de cegueira social e devoção azeda, bastante para alvoroçar o beatério. Voltamos ao mesmo: Deus, Pátria e Família. Claro que têm legitimidade para assim querer e advogar. Toda. Mas como nenhum dos vértices desse triângulo está ameaçado, dificilmente se entende a intenção. Cada um quer-se no seu canto. Há mulheres religiosas profundamente irrequietas e outras muito conformadas que não podem ver uma cruz, imaginam-se demonizadas. Já  conheci mulheres com fé, que são umas velhas malucas, de trotinete e joelheiras, e outras ateias, que são um caldinho sem sal, um corpo insosso, mal apaladado.

Confundir conservadorismo com religião, misturar ambos com bons princípios e valores é tacanhez. Sabe-me mais a antifeminismo, o antípoda de algo que já teve os seus dias e passou de moda. Segmentar as convicções, rotular as pessoas, as boas e as más, é exercício de má qualidade e de gosto piroso. E convida à radicalização e aos extremismos, a emoções em vez de razões. Sabe-me a uma versão requentada do Movimento Nacional Feminino, que Deus, na sua infinita misericórdia, lá tenha em bom descanso.

Há depois, e para finalizar, aquela incómoda afirmação de São Paulo, na Carta aos Gálatas – um acto intrinsecamente revolucionário – “não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”.

Em que ficamos? Por estas razões, não faz sentido cavar trincheiras nem fazer barricadas. Para quem tiver um QI médio é pura perda de tempo.

 

Rebelo Marinho

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Publicado em Opinião