Considero de grande relevância que a Comissão Europeia assuma o compromisso de introduzir a primeira Estratégia Europeia de Combate à Pobreza.
Nesta perspetiva, é fulcral que a CE reconheça que o idadismo é um grande obstáculo ao reconhecimento e abordagem das causas da pobreza entre as pessoas mais velhas na Europa.
O idadismo perpetua discriminações que agravam estas dificuldades económicas e limitam a implementação de soluções adequadas. As pessoas idosas que apresentam outras características relacionadas com género, orientação sexual, deficiência, origem social ou etnia podem enfrentar barreiras e desafios adicionais que limitam ainda mais o acesso a recursos económicos e sociais. As mulheres mais velhas, por exemplo, são desproporcionalmente afetadas e apresentam maior risco de pobreza, com taxas até 7,1 pontos percentuais superiores às dos homens no caso das mulheres com mais de 75 anos.
A discriminação com base na idade tem um impacto significativo nos trabalhadores mais velhos, chegando mesmo a negar-lhes o direito ao trabalho e colocando-os em elevado risco de pobreza. A discriminação etária no mercado de trabalho reflete-se na falta de oportunidades de aprendizagem para os trabalhadores mais velhos, na insuficiente adaptação dos locais de trabalho ou em condições laborais inadequadas.
No caderno de Economia, do jornal Público (16/05/2026), os jornalistas Diogo Cavaleiro e Raquel Martins concretizam a realidade, dura e crua, do mercado de trabalho em Portugal: “Menos de 5% dos contratados por grandes empresas têm mais de 50 anos. Peso dos mais velhos nas contratações é limitado. Perfil das vagas ajuda a explicar. Empresas rejeitam discriminação.” Contra factos, não haverá grandes argumentos que possam sustentar políticas de contratação impregnadas de idadismo: a maior seguradora do país, a Fidelidade, contratou 79 pessoas, apenas uma tinha mais de 50 anos; 274 pessoas entraram nos quadros do Santander, apenas 4 acima dos 50; o grupo BCP contratou 1544 pessoas, 55 com mais de 50 anos.
Ainda que se comece a dar mais valor aos profissionais 50+, na hora de contratar, os trabalhadores são confrontados com barreiras que resultam do idadismo institucional estrutural, alimentado por preconceitos, estereótipos e discriminações. “As dificuldades para os profissionais mais velhos evidenciam-se sobretudo quando estes trabalhadores querem regressar ao mercado de trabalho após uma situação de desemprego. Esta vulnerabilidade, nota em resposta ao Público, torna-se particularmente evidente no desemprego de longa duração, com os profissionais acima dos 55 anos a representarem atualmente 28,8% dos desempregados há mais de um ano, o valor mais elevado entre todas as faixas etárias.” (Erica Pereira, Diretora de Talento da Randstad)
Os profissionais mais velhos continuam a ser alvo de uma cultura idadista, por exemplo a ideia pré-concebida de que estes profissionais não são capazes de se adaptar tecnologicamente, não são empreendedores… outra dimensão, nada despicienda, é económica, os mais experientes são, em regra, mais bem remunerados do que os jovens.
O idadismo é um grande obstáculo na luta contra a pobreza entre as pessoas idosas. A Estratégia de Combate à Pobreza deve considerar a discriminação com base na idade em todas as áreas da vida social, adotando uma abordagem baseada nos direitos humanos, garantindo bem-estar e dignidade, reforçando a segurança financeira das pessoas de todas as idades. Quando uma sociedade associa envelhecimento a improdutividade, fragilidade ou obsolescência, cria mecanismos silenciosos de exclusão económica.
Uma sociedade que exclui trabalhadores apenas por causa da idade está não apenas a desperdiçar talento e experiência: está a institucionalizar a pobreza e a legitimar a discriminação.
A proteção dos trabalhadores mais velhos assume duas dimensões essenciais: reduz o risco de pobreza e contribui para a acumulação de poupanças mais robustas para a reforma.