Jogos de máscaras

O ensino visa o sucesso, mas a que preço o estamos a conquistar? Não é raro chegarem alunos ao ensino superior sem saberem ler um texto simples ou redigir um parágrafo. Estamos a criar legiões de analfabetos funcionais, incapazes de preencher um impresso, onde lhes é solicitada a filiação. Vivemos num jogo de máscaras, num ecossistema que se deteriora de ano para ano.

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  • 22:20 | Quarta-feira, 18 de Março de 2026
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É difícil, para qualquer organização, acompanhar e adaptar-se às mudanças. As escolas não fogem à regra. Os alunos são cada vez mais diversos, com culturas, religiões e hábitos distintos. Os professores competem, com os ecrãs, pela atenção dos seus alunos. As associações de pais parecem querer mandar nas escolas. Os professores são sufocados pela burocracia, desautorizados e desvalorizados pelos alunos, pelos pais e pela comunidade. Uma profissão sem reconhecimento social. Um absurdo. São os professores quem pode fazer a diferença no presente e ajudar a preparar o futuro. Já ninguém quer ser professor, algo dramático que não parece importar aos decisores políticos. A educação desapareceu do debate político, parece ter-se tornado em não assunto. Um erro crasso com custos colossais, a hipoteca do futuro comum.

O ensino visa o sucesso, mas a que preço o estamos a conquistar? Não é raro chegarem alunos ao ensino superior sem saberem ler um texto simples ou redigir um parágrafo. Estamos a criar legiões de analfabetos funcionais, incapazes de preencher um impresso, onde lhes é solicitada a filiação. Vivemos num jogo de máscaras, num ecossistema que se deteriora de ano para ano.

Agrava-se o fosso entre os ricos e os pobres. Os mais endinheirados colocam os seus filhos em colégios privados, financiam explicações, dão opções, nacionais e internacionais, de acesso ao Ensino Superior. Nada contra! Cada família procura dar o melhor que pode e sabe aos seus filhos.

As famílias com menores recursos económicos não conseguem dar as ferramentas necessárias para os filhos poderem “competir” com os colegas, não podem investir nas explicações, nem financiar a frequência do ensino superior, a não ser em cidades onde o custo de vida é mais baixo, limitando muito as opções. Quantas famílias podem, se os seus filhos tiverem as notas que lhes garantam o acesso, pagar um quarto em Lisboa, no Porto, em Aveiro, em Braga? Assim se aliena talento e potencial humano, tão necessário para o desenvolvimento do país.


Foi com alguma estupefação, embora compreenda a razão, que recebi a notícia de que o Governo criou ou vai criar um grupo de trabalho para elaborar orientações dirigidas às escolas sobre a proibição de atividades consideradas contrárias aos fins das instituições educativas. Quem dirige uma escola desconhecerá o seu conteúdo funcional? É necessário tal paternalismo?

O Jornal Público investigou as redes sociais de Zezinho e Gonçalo Maia, dois influenciadores, e foram identificadas pelo menos 79 escolas nos dois últimos anos letivos onde isto aconteceu, promoção de conteúdos sexuais e misóginos. Os influenciadores terão estado nas escolas para animar campanhas de listas de associações de estudantes.  As Associações de Estudantes, e quem a elas se candidata, não têm escrutínio? Os diretores não analisam os programas? O que fazem quando confrontados com os cartazes? Será mais uma consequência do fosso entre o dia a dia das escolas e a realidade dos alunos? Os vídeos publicados por Zezinho e Gonçalo Maia mostram o que acontece dentro das escolas públicas e privadas, de norte a sul do país, durante as campanhas para a associação de estudantes. Na mesma página em que Gonçalo Maia partilha os vídeos nas escolas, podemos encontrar links diretos para a pornografia que o influenciador protagoniza e vende no Onlyfans. Uma das diretoras, que aceitou prestar declarações, entre risinhos despropositados e reveladores diz o seguinte: “Vi-o sempre a fazer ginástica, sempre com tronco nu, sempre não sei quê. Disse: bem! Agora vou ver um homem em tronco nu, estava um frio de rachar! Eu pensei: pronto… portou-se muito bem! Nesta sequência de o ver, a lista que perdeu veio dizer. “Mas ele faz filmes pornográficos!”. Eu disse: “Não tenho nada a ver com isso! Ele aqui portou-se bem”. (Elisabete Costa, Diretora Adjunta de uma escola em Ferreira do Zêzere, In Público)

Parece claro que esta senhora não reúne as condições mínimas para o exercício das funções que lhe estão atribuídas. Senhora diretora, faça um favor a si própria e à comunidade, abandone o cargo de direção. Ainda não tínhamos recuperado de uma aberração, fomos confrontados com outra. Na Futurália, feira de educação e formação, em Lisboa, o Chega instalou um stand onde exibiu cartazes com mensagens como “Isto não é mesmo o Bangladesh (mas parece)“, acompanhados de estatísticas sobre nascimentos de imigrantes, narrativa central da teoria da Grande Substituição.

Como é possível isto poder acontecer? Espero que o slogan da feira – “O futuro passa por aqui!” – não se cumpra. Em tempos idos, alguém sugeriu que se implodisse a 5 de outubro. Não creio ser esta a solução. É fundamental não implodir, mas construir. Há momentos em que o melhor é parar, analisar, dialogar, reestruturar para ser possível avançar. É mais premente investir em inteligência emocional do que em inteligência artificial. Mergulhámos e estamos a afogar-nos numa “cegueira” tecnológica imune a valores, princípios, empatia e sentido de comunidade com consequências evidentes na saúde mental das crianças e jovens. A opção é mais coração, emoção e razão e menos digitalização, desresponsabilização e desumanização.

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