São muitos os exemplos de demonstração de força e poder, perante quem possa estar numa situação de desvantagem ou fragilidade, circunstancial ou estrutural.
Um exemplo claro, de força em relação aos fracos e de fraqueza em relação aos fortes, é a justiça. É gritante a incapacidade de se fazer justiça, quando se trata de megaprocessos, estando envolvidos poderosos, como na Operação Marquês, que envolve o antigo Primeiro-ministro, José Sócrates, iniciada em 2014 e, aparentemente, sem fim à vista.
Quem não tem recursos económicos tem muitas dificuldades em aceder à justiça e fica à mercê de um sistema penalizador e potenciador das desigualdades e iniquidades sociais. Este ecossistema injusto, desigual e classista, não é uma originalidade nacional, como ficou bem documentado na obra “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, publicado em 1862. De lá para cá, a realidade ter-se-á alterado pouco em França e também em Portugal. Os mais fragilizados, “Os Transparentes” (Ondjaki, Caminho, 2012), continuam a ser os alvos preferenciais em contextos diversos. À pergunta “Qual o culpado mais conveniente de um crime”, responde Ângelo Delgado com o seu mais recente livro: “Foi o Preto” (Oficina do Livro, 2026):
É repugnante e alarmante quando, numa esquadra de polícia, alguns energúmenos, não os considero agentes (só porque vestem uma farda), torturam e violam pessoas em situação de sem-abrigo; toxicodependentes e imigrantes. Foram detidos 9 agentes da PSP, em Lisboa, e poderão ser envolvidos 70, por omissão de auxílio e apologia do crime. Sucederam-se agressões e sodomização, com recurso a um bastão, atos hediondos e extremamente violentos, filmados e partilhados em grupos de Telegram e WhatsApp. Não se me apresentam grandes dúvidas, a maioria dos profissionais da PSP honra a farda que veste e serve a comunidade com sentido de missão e respeito pelos direitos humanos. Também por esta razão, caso seja provada a barbárie descrita na acusação, estes indivíduos não deverão voltar a exercer funções. Nunca foram, nem serão agentes da autoridade. Não passaram de um equívoco do sistema que causou sofrimento a várias pessoas, já bastante fragilizadas social e economicamente, desonraram uma instituição respeitável e essencial para a segurança das populações e envergonharam os portugueses.
Não pretendo associar estes casos ao discurso da extrema direita portuguesa, nem tenho dados que me permitam, em consciência, fazer. Posso, contudo, recordar que também os populistas e extremistas escolhem como alvos preferenciais pessoas ou grupos vulneráveis. Nos primeiros tempos, a extrema direita portuguesa escolheu os ciganos como os culpados de todos os males do país, acusando-os de viver à custa do Estado e diabolizando o Rendimento Social de Inserção (RSI), um apoio para pessoas em pobreza extrema, composto por uma vertente financeira e um contrato de inserção. Em 2026, o valor base para o titular é de €247,56. Um dado que deve ser repetido, o RSI registou o menor número de beneficiários em 20 anos, uma redução de 5,7% face ao período homólogo, representando menos quase 10 mil beneficiários. Recordo o ridículo a que foi votada a deputada Rita Matias, quando atacava a medida, sem sequer saber o seu valor, desmascarada pela jornalista.
No “mercado” da vulnerabilidade, a extrema direita decidiu dar alguma folga aos ciganos, explorando o fluxo crescente dos migrantes que elegeram Portugal para viver e trabalhar. Um mercado vibrante, um terreno fértil para semear o medo, adubado pela cor da pele e diferenças culturais e religiosas dos indostânicos. Terão desinvestido nos sapos à porta das suas casas e sedes partidárias para alavancar o novo slogan: “Isto não é o Bangladesh”. Uma estratégia bem-sucedida que entrou nas famílias e já chegou às escolas. “O caso do menino brasileiro com dedos amputados na escola levou vários pais e professores a denunciar nas redes sociais o entusiasmo de crianças e adolescentes com os slogans racistas e xenófobos do partido de extrema-direita.” (Diário de Notícias, 5/12/2025).
NOTA FINAL:
Uma investigação do INESC TEC em parceria com o Expresso revela que 23% dos 1402 vídeos publicados até outubro de 2025 pela conta do Chega e de Ventura no TikTok foram dedicados a dois temas: imigrantes e comunidade cigana. Um deputado do Chega teve um vídeo com 53 milhões de visualizações.