Mudança Radical: liderar pelo exemplo

por Norberto Pires | 2015.10.30 - 11:21

O papel das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) tem sido, é e continuará a ser, fundamental no futuro próximo de Portugal. Estão no centro de um esforço de coordenação e liderança regional que é cada vez mais necessário realizar para mudar a sina deste país. Mas é preciso ser claro e direto: o trabalho que tem vindo a ser feito nas CCDR pode em muito ser melhorado, suportado num maior e mais bem canalizado esforço interno e numa melhor coordenação entre as diferentes entidades estatais que importa envolver neste desafio de que é ter uma região onde as pessoas gostam de viver, estar e trabalhar. Sempre defendi, sem me preocupar com o politicamente correto, que as CCDR deveriam assumir tarefas de coordenação sectorial, dando corpo a uma estratégia regional que, apesar de alicerçada em políticas nacionais, fossem calibradas e orientadas para tirar partido das mais-valias regionais. Desse esforço conjunto, dessa rede de cumplicidade e proximidade, muito teria a ganhar a região e, essencialmente, muito mais teria a ganhar o país. Da descoordenação, da desagregação e dos múltiplos níveis de decisão regional só pode resultar uma menor eficiência e uma atuação errática e sem rumo definido.

Globalmente, Portugal foi até aqui incapaz de se reformar no modo como gere os territórios, as populações, os seus recursos e como dinamiza a atividade económica. A adesão à União Europeia, com o inerente investimento massivo em fundos comunitários e estruturais, poderia ter sido o factor mobilizador e desencadeador dessa mudança. A verdade é que depois de quatro quadros comunitários e sensivelmente 90 mil milhões de euros de incentivos, Portugal está ainda por construir, sendo no momento um país mais desigual, sobredimensionado, desequilibrado, que abandonou grande parte das atividades endógenas que o poderiam diferenciar, que não cuidou das mais-valias culturais, que negligenciou a qualidade do território, apresentando graves problemas de desertificação e baixa densidade populacional e económica.

As CCDR deveriam ter tido um papel muito mais ativo na preparação, desenho, planeamento e execução dos investimentos baseados em fundos comunitários, evitando assim muitas das críticas que se têm feito aos vários programas operacionais: mau planeamento; atraso inaceitável na sua realização (nos acordos, nos regulamentos e na realização no terreno); enormes dificuldades na avaliação da capacidade de criar valor, bem como na avaliação da capacidade dos promotores em manter a atividade planeada e financiada; incapacidade de avaliação de resultados; insuficiente acompanhamento de execução; péssima capacidade de decisão estratégica e incapacidade de limpar e reprogramar os programas operacionais (tarefas básicas, eu diria diárias, de qualquer processo de investimento); pulverização de fundos pelo território em iniciativas que foram montadas para captar fundos (disfarçadas de planos estratégicos elaborados, à ultima hora, essencialmente por empresas de consultoria) e não para atingir resultados; muita “festa” inconsequente e sem sentido; ausência de foco na captação de investimento; ausência de reflexão a médio e longo prazo e, consequentemente, de investimento eficaz na capacidade de gerar valor a partir do conhecimento e da transferência de tecnologia; ausência de foco na criação de uma identidade regional; incapacidade de perceber a importância de criar dimensão interna e externa (transfronteiriça) como forma de coordenar ações, planear investimentos e tirar partido e valor dessa ação conjunta. Custa registar estes factos? E quanto nos vão custar no futuro? Esta é reflexão que Portugal não deve ignorar.

Nota: este é o 1º de três artigos sobre este assunto. Continua na próxima semana.

(Publicado no Diário As Beiras de 30 de Outubro de 2015)

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal “Robótica”. Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

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