Desvalorizar a academia: um péssimo serviço prestado ao país

por Norberto Pires | 2018.03.04 - 11:58

Com o convite feito a Pedro Passos Coelho (PPC) para ser Professor Catedrático Convidado numa Universidade Pública Portuguesa, apareceram logo as claques, sempre conhecedoras de tudo.

A claque de PPC, pelo seu lado, opinou que era normal, que ele tem muito a ensinar e que isso se faz um pouco por todo o mundo. A claque anti-PPC, que desaprova tudo o que ele faz, opinou que era uma vergonha, que o tipo é um imprestável e só consegue o lugar porque o diretor da escola, Manuel Meirinho, foi deputado do PSD, eleito em 2011, lugar de que saiu para ser diretor do instituto em substituição do João Bilhim que foi liderar a CRESAP (a tal agência que deveria pôr ordem, e avaliar a competência, das pessoas colocadas nos vários lugares do Estado). Curiosa coincidência. Uma pessoa séria afasta-se destas coisas potencialmente “manhosas”.

Da minha parte não partilho nenhuma dessas opiniões. E confesso-me baralhado e triste com este país. A equiparação dada a PPC é um desrespeito e desvalorização da carreira académica. É, portanto, uma questão de exemplo, em primeiro lugar. Quando é a própria academia a promover esse desrespeito, está tudo dito sobre a sua aceitação, muitas vezes verificada, da utilização abusiva da academia como forma de “valorizar” CVs políticos.

O convite para lugares de convidado é uma exceção para CVs excecionais. A atribuição de uma equiparação ao topo da carreira, Professor Catedrático, é algo que deveria ser ainda mais excecional. Vulgarizar o assunto só desvaloriza a academia, a carreira académica e transmite um péssimo exemplo de facilitismo e via alternativa: há uns que são mais iguais que os outros.

Em Portugal, a ESMAGADORA maioria dos professores não passa de Professor Auxiliar, isto é, esses professores nunca são promovidos na carreira (independentemente da valia do seu CV). Isso acontece porque não há lugares de quadro suficientes e só alguns chegam ao topo: a universidade é uma organização em pirâmide, com auxiliares na base, depois associados e depois catedráticos. O exemplo que esta escola dá ao desvalorizar o lugar de Professor Catedrático é péssimo para essas pessoas, cujo CV é, na esmagadora maioria, muito bom (e são elas que na essência garantem o funcionamento das universidades), mas também mostra que certos caminhos alternativos podem valer a pena.

Convidar alguém para dar aulas tendo por base a sua experiência profissional, faz sentido. Com isso desvalorizar a academia, uma certa ideia de esforço para atingir objetivos e o prestígio de certos lugares é um péssimo exemplo e um desastroso serviço prestado ao país. Lamento muito que seja a academia a não se dar ao respeito e a contribuir para a sua desvalorização.

Professor Associado da Universidade de Coimbra foi Presidente do Conselho de Administração do Coimbra Inovação Parque e Membro do Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia. Possui Mestrado em Física Tecnológica e Doutoramento em Robótica e Automação pela Universidade de Coimbra. É o Editor do jornal "Robótica". Autor de cinco livros na área da robótica e automação tendo publicado mais de 150 artigos científicos e tecnológicos.

Pub