A suspensão da circulação ferroviária na Linha do Douro, entre a Régua e o Pocinho, é hoje um símbolo claro de um problema estrutural do país: a persistência de um Portugal a duas velocidades.
De um lado, o país das grandes autoestradas, das decisões rápidas e da proximidade aos centros de poder.
Do outro, o interior, onde as obras se arrastam, as respostas tardam e as populações são frequentemente chamadas a esperar.
O que está hoje a acontecer no Douro Superior não é apenas uma questão de transportes. É uma questão de coesão territorial, de justiça económica e de respeito por um território que tem contribuído decisivamente para a projeção internacional de Portugal.
A Linha do Douro é muito mais do que uma infraestrutura ferroviária. É uma linha estruturante para a economia do Douro Superior e um ativo estratégico para o turismo nacional. Durante a época das Amendoeiras em Flor, milhares de visitantes procuram o território, muitos deles através do histórico comboio que liga o Porto ao Pocinho, uma viagem considerada entre as mais bonitas da Europa.
Quando esta ligação é interrompida, o impacto sente-se imediatamente no território.
Sentem-no os restaurantes, que nesta altura do ano contam com um aumento significativo de visitantes.
Sentem-no os taxistas e operadores de transporte local, que asseguram a ligação entre estações, aldeias e pontos turísticos.
Sentem-no os agentes turísticos, guias e empresas de animação, que organizam programas para visitantes nacionais e estrangeiros.
Sentem-no, em suma, as pequenas economias locais que vivem do turismo e da dinâmica que o comboio gera.
As obras de modernização e eletrificação da Linha do Douro são importantes e necessárias. O investimento anunciado de cerca de 165 milhões de euros é um passo relevante. Mas modernizar não pode significar deixar um território meses a fio sem uma das suas principais ligações ferroviárias, especialmente quando se acumulam interrupções por obras, intempéries e constrangimentos operacionais.
O Douro Superior não pode continuar a ser tratado como um território de segunda linha.
Estamos a falar de uma região Património Mundial da UNESCO, de um dos motores turísticos do interior e de um território que tem sabido afirmar-se pela sua cultura, pela sua paisagem e pela sua capacidade de atrair visitantes de todo o mundo.
Por isso, é legítimo exigir ao Governo celeridade, clareza e compromisso político. O país não pode continuar dividido entre o Portugal da A1 e o Portugal do interior. O Douro merece mais do que promessas.
Merece respostas rápidas, mobilidade digna e respeito por um território que continua a dar muito a Portugal.
Torre de Moncorvo, 6 de março de 2026
O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo
José Meneses