As reclamações relacionadas com ações de recall no setor automóvel aumentaram 459% no primeiro semestre de 2026, face ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Portal da Queixa, que apontam para maior visibilidade do tema e novas regras como fatores explicativos. As falhas na execução destes processos podem colocar a segurança de condutores em risco.
As ações de recall (ações de chamada), são um procedimento gratuito através do qual os fabricantes de automóveis convocam os proprietários para corrigir defeitos ou anomalias detetadas em veículos já colocados no mercado — situações que podem representar riscos para a segurança dos utilizadores ou para o meio ambiente.
Inspeções e plataforma RECALL aumentam deteção
Cerca de um terço das reclamações deste ano (32,5%) menciona a inspeção periódica obrigatória e, em cerca de 10% dos casos, foi nesse momento que os cidadãos tiveram conhecimento de um recall ativo no veículo.
Recorde-se que, desde 1 de março de 2026, qualquer veículo com um recall não resolvido reprova automaticamente na inspeção, o que contribuiu para a identificação de situações até então desconhecidas pelos proprietários.
A criação da plataforma nacional RECALL – desenvolvida pela ACAP em parceria com o IMT – veio também reforçar a transparência, permitindo a qualquer cidadão verificar, através da matrícula ou do VIN, se o seu veículo tem campanhas pendentes.
Nas ações de recall, as marcas devem contactar diretamente os proprietários identificáveis, recorrendo a meios eficazes como carta, email, telefone ou SMS. Contudo, quando há mudança de proprietário, os dados podem não estar atualizados, dificultando esse contacto direto. Ainda assim, os fabricantes mantêm a obrigação de divulgar os recalls por canais públicos e de garantir a reparação gratuita.
Apesar do novo enquadramento, os dados do Portal da Queixa evidenciam dificuldades no processo. Após a identificação do recall, os condutores reportam atrasos na reparação, falta de peças, falhas no agendamento e ausência de resposta por parte das marcas.
As principais reclamações incidem sobre: Produto e Reparação (62,02%) — defeitos, peças indisponíveis ou reparações inadequadas; Serviço e Atendimento (24,03%) — falta de apoio, comunicação deficiente e longos tempos de espera; Segurança e Conformidade Legal (10,08%) — incumprimento de normas e riscos para os utilizadores e Garantias e Obrigações Contratuais (3,88%) — falhas no cumprimento de prazos e cobertura.
Lisboa (22,48%) e Porto (18,60%) concentram o maior número de ocorrências. A maioria dos reclamantes é do sexo masculino (72,09%), com maior incidência entre os 35 e os 54 anos.
Mais visibilidade, mais exigência
A análise evidencia que o aumento das reclamações não traduz necessariamente uma degradação na gestão dos recalls por parte das marcas, mas antes uma maior exposição do tema, impulsionada por novas ferramentas de consulta e por regras mais exigentes nas inspeções.
Segundo Pedro Lourenço, Fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust: “Mais do que apontar responsabilidades de forma automática, é fundamental olhar para o ecossistema como um todo. Há, naturalmente, falhas que devem ser corrigidas, nomeadamente quando há falta de resposta, indisponibilidade de peças ou atrasos na reparação. Mas também existem limitações reais, como a dificuldade em contactar os atuais proprietários quando os veículos mudam de titular e os dados não estão atualizados.”
E sublinha: “O desafio passa por reforçar a eficácia dos processos, garantindo uma comunicação clara, respostas atempadas e capacidade de execução adequada – elementos críticos para a segurança rodoviária e para a confiança dos cidadãos.”