O Achódromo

por Alexandra Azambuja | 2014.06.20 - 15:41

 

Portugal encolhe.

Nasceram menos 13 000 crianças nos últimos 3 anos. Muitos portugueses emigraram, outros desistem e deixam-se morrer.

Caminhamos assim, determinados e orgulhosamente sós para o abismo.

Orgulhosamente, mas distraídos com o futebol, as novelas, a conversa do café e o achódromo.

O achódromo é um lugar tipicamente português, de preferência à volta de uma mesa e onde à falta de conversa produtiva se deitam bitaites sobre tudo. Sobre a economia pois claro, sobre os destinos da nação pois claro, sobre o futebol, pois claro, sobre tudo o que o Estado – essa coisa imensa e impalpável – devia fazer e não faz, pois claro.

O achódromo permite ter soluções para tudo – ai o estádio devia ter grandes eventos para rentabilizar o monstro. Ai tão fácil que é. Sim as câmaras que têm estádios às costas só não fazem grandes eventos porque são do contra. É muito fácil fazer mega eventos. Facílimo. Sobretudo se se fizer parte das duas ou três empresas que produzem grandes eventos em Portugal, com décadas de experiência na área, capacidade de investir milhões, conhecimento sobre a brutal promoção que é necessário fazer para garantir o retorno do investimento, ligações privilegiadas ao mundo artístico e dedicação exclusiva à organização de grandes eventos…

O achódromo é aquele lugar onde qualquer português tem a solução da crise, do conflito israelo-árabe, da rentabilização da CP e da cura do cancro, quiçá da extinção do sol daqui a uns quaziliões de anos…

 

Eu o que gostava é que os portugueses estudassem.

Estudassem não é necessariamente ir para os bancos de escola como se tivessem 6 anos, mas custa muito ir à Pordata ver os dados estatísticos antes de soltar enormidades? Custa muito ir fazer uma pesquisa básica no Google antes de achar tudo e mais alguma coisa? Já não digo um doutoramento em Filosofia Política, mas uma opiniãozinha fundamentada? Umas leituras, um pedido de esclarecimento a quem sabe mais, uma análise crítica?

Não temos todos de saber tudo.

Eu por exemplo não tenho nenhum problema em confessar as minhas muitas ignorâncias. Não sei nada de geoestratégica internacional. Como mudar um pneu. O que se usa este Verão. Como é que os adolescentes se divertem na noite. O que escreveram os novos talentos da literatura portuguesa. Não sei tanta coisa importante como porque raio a Síria é a tragédia em directo, ao vivo e a cores ou porque raio o BES chegou ao que parece que chegou. Não sei como raio a teoria do crescimento económica diz que o crescimento é infinito se a terra e os recursos são finitos. Mas, se não temos opinião fundamentada sobre tudo é porque somos pessoas não? Trabalhamos, somos pais e mães, temos um tempo escasso, não somos analistas nem comentadores profissionais.

Posto isto o que custa responder, civilizadamente, sobre questões como a eutanásia, ou o destino a dar ao estádio de Leiria:

– Não tenho opinião fundamentada.

 

Não ter opinião fundamentada é assumir que não temos informação suficiente, não é um atestado de ignorância.

E agora que Joaquim Azevedo – o homem escolhido pelo Governo para liderar uma equipa que vai traçar um plano de açcão para a natalidade – disse que há empresas em Portugal que estão a obrigar mulheres a assinar declarações em que se comprometem a não engravidar nos próximos cinco anos, em que ficamos?

Voltámos ao antigamente?

As mulheres – e os homens – vão ter de escolher entre ter emprego ou ter filhos? As empresas que fazem estas perguntas vivem para que consumidores? Alienígenas? É que se isto se generaliza trabalhamos todos, mas para o boneco, porque sem renovação geracional não haverá gente a comprar as coisas que as empresas produzem.

Portugal encolhe.

Em crianças, adultos e velhos.

Encolhe em esperança e dignidade.

Em sentido e vontade.

Portugal encolhe porque temos esta doença mortal de sermos pequeninos e vermos poucochinho.

Portugal encolhe em respeito, mérito e brio de cada vez que o achómetro é ligado, de cada vez que não fazemos o melhor, de cada vez que encolhemos os ombros, de cada vez que achamos que é o outro quem deve fazer.

Portugal não começa nem acaba num campeonato de futebol.

Um país apenas faz um intervalo quando há um campeonato de futebol, aquela coisa que já foi um desporto muito antes de se ter tornado num negócio triste.

Um país somos nós.

Portugal que encolhe somos nós.

 

Seremos menos no futuro, mais tristes e pobres, mais resignados cheios de fado, futebol e Fátima?

Não faço ideia, não tenho opinião fundamentada.

Vou perguntar.