Lembrar José Rodrigues Miguéis

Miguéis é um dos inúmeros casos de autores esquecidos ou semi-esquecidos em Portugal. Na perspectiva do valioso património cultural que representam, muitos dos grandes nomes da nossa literatura são vítimas injustas de imerecido anacronismo e do destrato, por parte da Academia e das editoras, mas também por parte das instituições culturais nacionais, com pesadas e alijadas responsabilidades na matéria...

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  • 21:27 | Segunda-feira, 05 de Abril de 2021
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Hoje, por mera coincidência, apareceu-me por duas vezes o nome do escritor José Rodrigues Miguéis.

Na revista “Ver e Crer”, nº 38 de 1948, com um conto que desconhecia “Bandeira do Carmo” cuja acção se desenrola em Lisboa nas primícias da instauração da República e numa nota de Agustina Bessa-Luís publicada no “Dicionário Imperfeito”, edição da Guimarães Editores, 2008, que parcialmente cito:


 

“Era um homem delicado que escondia uma espécie de certeza ardente: de que a vida era uma decepção que não valia a pena averiguar profundamente. Tinha ele uma certa aura de exilado, que não aceitava muito bem. Um azedume fino adivinhava-se naquele rosto que podia ser o de um Joyce menos obstinado; convencional no quotidiano, como Joyce, mas desmesurado na exigência inovadora. Porém, Rodrigues Miguéis não teve o vento triestino a abordar-lhe a alma como uma maldição prodigiosa. Viveu em Nova Iorque, não sei se passivamente ou desiludido. Escrevia com rara inteligência, que é uma maneira de escrever que nos embaraça.”

José Rodrigues Miguéis nasceu em Lisboa em 1901, filho de Manuel Maria, um galego de Pontevedra e de Maria Adelaide, de Coimbra. Estuda Direito na FDUL e torna-se um activista político, colaborador da Seara Nova, com outros escritores como Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Câmara Reys, Jaime Cortesão, Raul Brandão, et all. Colabora activamente em jornais e revistas, desde O Século, à Alma Nova. Em 1925 é delegado do procurador da República em Setúbal. De volta a Lisboa, torna-se professor de História e de Geografia. Em 1929 vai para Bruxelas para se pós-graduar na Universidade Livre. Nesse país conhece a sua primeira mulher, a professora russa Pecia Cogan Portnoi. Em 1935 auto exila-se nos EUA, passando a residir em Nova Iorque onde funda o Clube Operário Português. Em 1940 já divorciado de Pecia, casa-se com a luso-americana Camilla Pitta Campanella.

 

Entretanto a sua produção literária dá ao prelo vários títulos e faz diversas traduções para português de autores de língua inglesa. Vem por duas vezes a Portugal na década de 40, passando depois a residir em Nova Iorque e no Rio de Janeiro. De 1957 a 1960 está em Lisboa onde recebe o Prémio Camilo Castelo Branco da Sociedade Portuguesa de Escritores (1959). De volta a Nova Iorque foi eleito Membro Correspondente pela Hispanic Society of America. Morre nessa cidade em 1980.

Miguéis é um dos inúmeros casos de autores esquecidos ou semi-esquecidos em Portugal.

Na perspectiva do valioso património cultural que representam, muitos dos grandes nomes da nossa literatura são vítimas injustas de imerecido anacronismo e do destrato, por parte da Academia e das editoras, mas também por parte das instituições culturais nacionais, com pesadas e alijadas responsabilidades na matéria…

 

BIBLIOGRAFIA

Romance

– Uma Aventura Inquietante, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1958, 6ª ed., Editorial Estampa, 1989.

– A Escola do Paraíso, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1960, 8ª ed., Editorial Estampa, 1989.

– Nikalai! Nikalai! seguido de A Múmia, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1971, 3ª ed., Editorial Estampa, 1985.

– O Milagre segundo Salomé (2 vols), Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1975, 3ª ed., Editorial Estampa, 1984.

– O Pão Não Cai do Céu, Lisboa, Editorial Estampa, 1981, 6ª ed., Editorial Estampa, 1989.

– Idealista no Mundo Real, Lisboa, Editorial Estampa, 1986, 2ª ed., Editorial Estampa, 1991.

Novela e Conto

– Páscoa Feliz, Lisboa, Edições Alfa, 1932, 7ª ed., Editorial Estampa, 1987.

– Onde a Noite se Acaba, Rio de Janeiro, Edições Dois Mundos, 1946, 6ª ed., Editorial Estampa, 1985.

– Saudades para a Dona Genciana, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1956.

– Léah e Outras Histórias, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1958, 10ª ed., Editorial Estampa, 1987.

– Gente da Terceira Classe, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1962, 5ª ed., Editorial Estampa, 1990.

– Comércio com o Inimigo, Porto, Editorial Inova, 1973.

– Pass(ç)os Confusos, Lisboa, Editorial Estampa, 1982, 2ª ed., Editorial Estampa, 1982.

Narrativa autobiográfica

– Um Homem Sorri à Morte – Com Meia Cara, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1959, 4ª ed., Editorial Estampa, 1989.

Teatro

– O Passageiro do Expresso, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1960, 2ª ed., Editorial Estampa, 1984.

Crónica

– É Proibido Apontar – Reflexões de Um Burguês – I, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1964, 3ª ed., Editorial Estampa, 1990.

– O Espelho Poliédrico, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1973, 3ª ed., Editorial Estampa, 1989.

– As Harmonias do «Canelão» – Reflexões de Um Burguês – II, Lisboa, Editorial Estúdios Cor, 1974, 2ª ed., Editorial Estampa, 1984.

 

(Fotos DR)

 

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