Pela primeira vez, estamos perante um rápido crescimento de novas ferramentas de diagnóstico e de potenciais tratamentos para a doença de Alzheimer e outras demências. No entanto, estes avanços poderão ser comprometidos se não aumentar a participação em ensaios clínicos e se não forem revistos alguns dos atuais critérios restritivos de elegibilidade, alerta a Alzheimer’s Disease International (ADI).
O novo Relatório Mundial sobre Alzheimer 2026, intitulado «Uma nova era nos ensaios clínicos sobre demência», revela que mais de 158 potenciais terapêuticas estão a ser avaliadas em mais de 192 ensaios clínicos em todo o mundo.
“Este é um momento de verdadeira esperança para a investigação na área da demência. Depois de décadas de frustração, os ensaios clínicos demonstraram, pela primeira vez, que novos tratamentos podem abrandar a progressão da doença de Alzheimer, e uma crescente carteira de ensaios de novos tratamentos oferece motivos reais para esperança”, afirma Chris Lynch, Diretor Executivo interino da Alzheimer’s Disease International.
“Estamos à beira de uma revolução no diagnóstico e tratamento da demência, mas os importantes obstáculos ao recrutamento de participantes para ensaios clínicos ameaçam atrasar os progressos.”
Cada nova ferramenta de diagnóstico ou potencial tratamento depende da disponibilidade de pessoas para participarem voluntariamente na investigação. No entanto, o reduzido conhecimento sobre a possibilidade de participação em ensaios clínicos e as dificuldades nos processos de referenciação por médicos e especialistas podem não apenas atrasar o progresso científico, mas também limitar o direito das próprias pessoas a terem a oportunidade de participar na investigação.
Uma realidade global profundamente desigual
Mais de 60 milhões de pessoas vivem atualmente com demência em todo o mundo, número que deverá ultrapassar os 139 milhões em 2050.
Mais de 60% vivem já em países de baixo e médio rendimento, proporção que deverá ultrapassar os 70% até 2050.
Apesar desta realidade, o relatório evidencia uma profunda desigualdade geográfica: quase metade dos 6.763 centros ativos registados a nível mundial que realizam ensaios clínicos de medicamentos para a doença de Alzheimer encontra-se na América do Norte e em países de elevado rendimento.
A ADI apela, por isso, a um maior investimento dos governos na criação e desenvolvimento de infraestruturas destinadas à realização de ensaios clínicos nos respetivos países.
Barreiras à participação em ensaios clínicos
As barreiras à participação surgem frequentemente muito antes de uma pessoa chegar a um centro de investigação.
O diagnóstico tardio, o acesso limitado a exames especializados, os custos associados às deslocações, as barreiras linguísticas e a eventual necessidade da presença de uma pessoa cuidadora podem impedir que alguém chegue sequer a ser considerado para participar num ensaio clínico.
Estas dificuldades tornam-se ainda mais evidentes quando se pretende recrutar voluntários em fases pré-sintomáticas ou em situação de risco de desenvolver doença de Alzheimer ou outras demências.
Mesmo quando existe interesse em participar, os antecedentes clínicos ou os tratamentos anteriormente realizados podem impedir que a pessoa cumpra os critérios de elegibilidade definidos para determinado estudo.
José Carreira, representante de Portugal na Alzheimer’s Disease International, afirma:
“Estamos a viver um momento de esperança na investigação sobre a doença de Alzheimer e outras demências. Mas a esperança só se transforma em progresso quando as pessoas têm a possibilidade real de participar.
Em Portugal, precisamos de aproximar a investigação das pessoas, melhorar a informação sobre os ensaios clínicos e criar condições para que quem vive com demência possa conhecer e exercer o seu direito a participar na investigação.
Não podemos falar de uma nova era no diagnóstico e no tratamento se essa nova era não for também mais acessível, mais inclusiva e mais representativa. As pessoas que vivem com demência não podem ser apenas destinatárias dos avanços científicos: devem ser reconhecidas como participantes e parceiras na construção desse futuro.”
Participar na investigação: oportunidade, direitos e exigências
Participar num ensaio clínico pode representar esperança e constituir uma experiência pessoalmente gratificante. Mas pode também ser exigente, tanto física como emocionalmente.
A participação implica frequentemente uma disponibilidade significativa de tempo, deslocações e compromisso por parte dos participantes e, muitas vezes, das pessoas que os acompanham e cuidam.
Pode ainda envolver exames e avaliações repetidas, consultas clínicas regulares, alterações às rotinas habituais e a incerteza inerente ao próprio processo de investigação, incluindo não saber se a pessoa receberá o tratamento em estudo ou se beneficiará diretamente da sua participação.
