O governo apresentou, ontem, dia 14, em Gouveia, o projecto de construção e o lançamento do concurso público de construção da barragem hidroeléctrica de Girabolhos (concelho de Seia), considerada a solução para controlar os caudais, evitando as cheias no Baixo Mondego, como as que aconteceram este ano, que provocaram perda de culturas e danos nos sistemas de rega e infra-estruturas rodoviárias.
O MUNDA – Movimento em Defesa do Rio Mondego tem denunciado esta simplificação de um problema tão complexo como este, que desvia a atenção para os problemas de fundo e das ineficiências diversas, deixando de fora as soluções mais estruturantes e globais, como a gestão da bacia hidrológica do Mondego e respectivos afluentes no seu todo, corrigindo a actual gestão excessivamente centralizada, ignorando realidades locais, nomeadamente a manutenção e valorização das infraestruturas hidráulicas degradadas, os assoreamentos de muitos troços, as centenas de cursos de água carentes de limpeza e ordenamento para fins úteis e erradamente emanilhados em zonas urbanas impermeabilizadas, a renaturalização das margens dos rios desnudadas, com especial atenção para as zonas ripícolas e os solos atingidos pelos incêndios florestais que ficaram impermeabilizados, levando ao escoamento descontrolado da água, que o degelo na Serra da Estrela agravou ainda mais.
Desde logo, o projecto inicial da barragem de Girabolhos não foi inicialmente concebido para controlo de cheias, mas para produção de energia, regularização de caudais e outros usos associados à gestão de recursos hídricos. Acontece que a sua capacidade de armazenamento levanta dúvidas quanto à eficácia em cenários extremos, tendo em conta episódios recentes de precipitação que geraram volumes de água superiores à capacidade total prevista para o sistema, ao mesmo tempo que a sua área de influência abrange apenas uma fração da bacia hidrológica do Mondego inferior a 5%, o que limita o seu impacto global.
Isto sem falar de todos os impactos ambientais e hidromorfológicos das barragens, para além das alterações nos microclimas provocadas pelas albufeiras, a nível de humidade, o que poderá prejudicar as zonas vinhateiras e outras culturas. Um investimento da magnitude de uma barragem terá de ser bem sustentado cientificamente, sopesando todos os impactos negativos, que lançam sérias dúvidas de que servirá todos os territórios da bacia hidrográfica e não apenas espúrios interesses particulares.
A certeza científica de um futuro antecipado com fenómenos meteorológicos extremos em toda a Europa, mas com mais impacto na Península Ibérica, foi confirmado, em Abril deste ano, pelo Relatório Copérnico que alertou para o aquecimento da Europa a um ritmo que é o dobro da média do planeta, o que levará a curto prazo a uma instabilidade climática estrutural, isto é, a eventos climáticos extremos (secas, incêndios florestais, ondas de calor, inundações e tempestades como as que conhecemos em Portugal recentemente, umas a seguir às outras), que já estão a aumentar perigosamente em frequência, extensão e intensidade (2025 foi o ano mais quente registado na Europa e o 3º mais quente em todo o mundo).
A Península Ibérica será a região mais afectada . As alterações climáticas aproximam-nos perigosamente do ponto de não retorno do colapso dos ecossistemas e da extinção a médio prazo da nossa espécie. O degelo do Ártico está a alterar a corrente quente do Golfo a que devemos o nosso clima temperado e levará ao arrefecimento brutal do Noroeste da Europa. Esta é a única guerra certa que temos que travar, em Portugal e na Europa: a guerra contra o colapso climático! Para isso, os governos têm que investir mais em soluções estruturantes que não se compadecem com uma única panaceia parcial, por mais que sirva para iludir autarcas com um falso desenvolvimento, “encher o olho” dos eleitores e a bolsa dos construtores.
O MUNDA pretende contribuir para um diagnóstico ambiental, socioeconómico e cultural da bacia hidrológica do Mondego, que conduza à revitalização destes sectores, e defende o diálogo entre a comunidade científica, técnicos, autarcas, populações e organizações ambientalistas, de desenvolvimento local e de agricultores, sob o lema “pensar global, agir local!”, para que, de uma vez por todas, se deixe de “encanar a perna à rã” num problema de tão profunda gravidade para o nosso futuro comum.
MUNDA – MOVIMENTO EM DEFESA DO RIO MONDEGO