Um debate no recreio da escola

O primeiro mandato já está a acabar… respirem fundo… Mas ele aí está novamente, como seria de esperar, até porque não deverá existir à face da terra alguém mais apegado ao poder (bem, talvez Putin, ou Maduro…). A táctica que usou contra Hillary está de regresso: atropelos constantes à liberdade de comunicação e regras de etiqueta, má educação, rudeza e a habitual verborreia umbiguista. Do outro lado, o vice-presidente de Obama, Joe Biden, que ganhou o lugar ao muito mais vivaço Bernie Sanders.

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  • 12:04 | Quinta-feira, 01 de Outubro de 2020
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Nos Estados Unidos da América, os candidatos não são escolhidos pelos seus méritos oratórios, diplomacia ou experiência política, mas sim pela capacidade financeira e pelos valores que conseguem arrecadar durante o ciclo eleitoral. De que outra forma conseguiríamos explicar a um extra-terrestre, recém-chegado ao nosso planeta, que uma personagem como Donald Trump é mesmo presidente de um país?! E não se trata de um país qualquer, é o auto-proclamado “líder do mundo livre”.

Vem isto a propósito do debate entre os dois candidatos à presidência americana, realizado na terça-feira. Porque, quase quatro anos depois, ainda me custa a acreditar que os americanos elegeram mesmo tão ignóbil criatura para gerir os seus destinos.

Habituei-me, na década de 90, a assistir aos debates finais entre candidatos, sobretudo desde que Clinton “roubou” o segundo mandato ao Bush pai. Mais experiente, quatro anos depois, o democrata nem chegou a ser beliscado por Bob Dole para chegar ao segundo mandato. Seguiu-se a famigerada primeira eleição de Bush filho, em 2000, onde Al Gore, vice-presidente de Clinton, teve mais votos e maior percentagem eleitoral (48,4 contra 47,9%), mas perdeu por 5 votos no colégio eleitoral (266-271). Bush teve mais sorte na segunda eleição, contra um macio John Kerry, cedendo depois o seu lugar ao democrata Obama. Os debates entre este e os seus opositores, o bonacheirão John McCain e o circunspecto Mitt Romney, foram muito interessantes, levando a incerteza sobre o vencedor até às urnas. Mas Obama conseguiu levar a tocha até Hillary Clinton, que se perfilava como a primeira presidente americana. Até que surgiu Donald Trump…

Há quatro anos, o mundo ficou incrédulo com a vitória republicana. Todas as sondagens davam a vitória a Hillary, que teve mais votos, maior percentagem (48,18 contra 46,09%), mas perdeu, tal como Gore, no colégio eleitoral (227-304). Em choque ainda, fomos assistindo a todo o tipo de malabarismos, contradições, mentiras, atropelos e desconsiderações por parte do presidente americano, que governou com a subtileza de um elefante a andar de patins numa loja de porcelanas.

O primeiro mandato já está a acabar… respirem fundo… Mas ele aí está novamente, como seria de esperar, até porque não deverá existir à face da terra alguém mais apegado ao poder (bem, talvez Putin, ou Maduro…). A táctica que usou contra Hillary está de regresso: atropelos constantes à liberdade de comunicação e regras de etiqueta, má educação, rudeza e a habitual verborreia umbiguista. Do outro lado, o vice-presidente de Obama, Joe Biden, que ganhou o lugar ao muito mais vivaço Bernie Sanders.

O debate de terça-feira, o primeiro de três, confirmou o que era expectável, vindo de quem vem: bullying contínuo, ataques pessoais a familiares de Biden, zero decoro e contenção verbal. A forma como Trump falou por cima do seu opositor, cortou constantemente a sua linha de raciocínio e o interrompeu já estaria estudada há meses, conhecendo as fraquezas do democrata. Evidenciou a sua personalidade asquerosa e rudimentar e um ego do tamanho de um sistema planetário, algo que já exibia há décadas, tanto no programa televisivo “The Apprentice” ou nos concursos de Miss América, promovidos pelo empresário.

Trump não muda, quem muda são os seus adversários. Sabe que as pessoas que votaram nele em 2016 vão votar novamente, porque o seu discurso é exactamente igual. Meia dúzia de mentiras e promessas ocas, aliadas a repetidas afirmações da hegemonia americana no mundo, não receando nada nem ninguém, e está servida a mesma refeição. Sabendo disso, os democratas optaram pelo completo contraponto de Trump, uma figura dócil, inofensiva e demasiado complacente. Além de mandar calar a alaranjada figura e de lhe chamar “palhaço”, Joe Biden apenas fez acusações diretas, como “você foi o pior presidente americano de sempre”, sem nunca as aprofundar devidamente. É certo que estava constantemente a ser interrompido, mas quando falou, de olhos para as câmaras televisivas, não foi eloquente ou assertivo o suficiente, não apresentou alternativas nem programa eleitoral capaz. Em meia dúzia de palavras, Trump conseguiu sempre reverter tudo a seu favor. Biden pareceu um daqueles miúdos que passa a vida a ser achincalhado no recreio por um miúdo mais forte fisicamente, e que, por fim, resolve fazer queixa desses maus tratos. O pior é que com essa queixa a sua vida fica ainda mais infernizada…

O debate foi pobre e até confrangedor. Nem mesmo quando o moderador deu oportunidade a ambos para falarem de projectos para os próximos quatro anos se ouviu uma ideia, reforma ou visão. Preferiram, ambos, falar do que cada um fez no passado, criticar o que foi feito quando um e outro estiveram no poder. Quem perdeu foram os eleitores, que, desta forma, ficaram a saber precisamente o mesmo que já sabiam.

O meu receio é que os próximos debates sejam precisamente iguais, com Trump a pulverizar tudo novamente com constantes elogios a si mesmo, e que Biden continue amorfo, pouco loquaz e repetitivo. Tenho receio dos próximos quatro anos com Trump novamente ao leme de uma das mais poderosas nações do mundo. Temo que perca as eleições e arranje forma de impugnar o acto ou de reverter os resultados a seu favor. Porque quando as crianças mimadas recebem um presente que desejavam há muito tempo, não deixam mais ninguém brincar com ele.

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