Pela nossa saúde!

O partido do diálogo, seguindo o incensado líder de então, obstinado com o seu espelho, transformou-se no grupo dos teimosos, substituindo os méritos da palavra pelas virtudes do golpe de malhete. Numa obsessão, insensata e tonta, perderam tempo e aliados, na proporção em que ganharam adversários e revoltados.

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  • 17:35 | Segunda-feira, 03 de Junho de 2024
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O PSD cumpriu a promessa eleitoral de, em 60 dias, apresentar um plano de emergência para a saúde.

Como sempre, a oposição, com o PS à cabeça, destratou o documento, dizendo ser um mero conjunto de intenções, sem, contudo, apresentar alternativa, certamente por não a ter ou, tendo-a, não ser credível.

Os socialistas, que nesta matéria foram protagonistas de um passado bem triste e desgraçado, devem ter boa memória do que fizeram com o Mecanismo Nacional Anticorrupção (MENAC), criado em Dezembro de 2021, e que em 2023 ainda não estava instalado, e com a Direcção Executiva do SNS, criada em Agosto de 2022, designado o seu presidente em Outubro do mesmo ano, só vendo aprovados os seus estatutos, que definiram a sua organização interna, no mesmo mês do ano seguinte.


Dois exemplos, entre outros, de entidades que, depois de criadas no papel e anunciadas com toda a solenidade, demoraram anos a ser dotadas de recursos e a ser implementadas. Dois exemplos de uma lentidão absurda e exasperante, na decisão política, de interregnos nada louváveis. Neste aspecto de interregnos entre intenções e execuções, o mais recente PS não tem curriculo nem moral para dar lições seja a quem for.

Em nome da verdade histórica, vale a pena lembrar que o PS, com 8 anos de governação, deixou a saúde num caos, sem ideias nem projectos que lhe dessem rumo e esperança em dias melhores, e o SNS em cacos, razoável para quem entrou, detestável para quem, frágil e vulnerável, tem de aguardar.

Mesmo mudando de ministros, não foi capaz de uma política de jeito, que robustecesse o SNS e desse aos seus utentes o tratamento que a dignidade exige e reclama. Foram anos e anos de absoluta inépcia e de inúteis medidas avulsas, para além do malogro das negociações com os sindicatos da classe médica e de enfermagem.

O partido do diálogo, seguindo o incensado líder de então, obstinado com o seu espelho, transformou-se no grupo dos teimosos, substituindo os méritos da palavra pelas virtudes do golpe de malhete. Numa obsessão, insensata e tonta, perderam tempo e aliados, na proporção em que ganharam adversários e revoltados.

Também por isso, tudo o que vier é bom, porque pior não pode ser. O panorama com que a ministra da Saúde se confronta é aterrador, verdadeiramente apocalíptico, capaz de desmoralizar o mais corajoso político. É inconcebível que se tenha chegado a este desastre social, a um ponto de ruptura, que ameaça pôr em causa os cuidados mínimos de saúde devidos pelo Estado aos seus cidadãos.

Em listas de espera para consultas, estão inscritos 891.000, estando 455.000 já acima do tempo máximo, e sendo prioritários 11.000. Em listas de espera para cirurgia, já com diagnóstico feito, estão inscritos 267.000, tendo 74.000 ultrapassado o tempo máximo, e sendo 9.000 doentes com cancro. Detenho-me nos atrasos infindáveis em consultas e cirurgias, aqueles que mais atingem o bem-estar das pessoas.

Pois bem, o plano prevê, entre muitas outras medidas, o fim das listas de espera oncológicas (consultas e cirurgias), mais do que prioritárias, em 3 meses, e até ao fim do ano as demais listas, e a criação de novos centros clínicos em Lisboa e no Porto, para alívio das urgências. Parece-me bem. Contudo, para que este plano não seja apenas um conjunto de “power-points”, coloridos e atractivos, olhemos aos detalhes, a gestão e a informação, desejavelmente presentes durante a sua execução.

Impõe-se um gestor exclusivamente dedicado a garantir a sua aplicação e uma informação regular sobre o seu cumprimento, garantindo transparência ao processo. Dois requisitos para que o plano tenha mais condições de eficácia. Veremos até que ponto o governo, honrando o compromisso de apresentação do programa, tem agora meios para cumprir as datas nele elencadas.

Se a equipa da saúde, à semelhança das anteriores, falhar, e tendo em conta a pressão que o próprio governo colocou nesta área tão sensível,  resta-lhe o caminho da saída.

Para falhanço de metas e incumprimento de promessas, já basta o jurássico médico de família para 545.000 portugueses, em 2015, e que este ano já vai em 1 milhão e 600 mil, mais do triplo do que há 9 meses, quando o PS formou governo. Se não se tratasse de vidas, seriam números para o anedotário nacional.

Depois de tudo isto, será prudente que o PS saia de fininho da discussão à volta do programa apresentado, e aguarde pelo seu eventual incumprimento para dar sinal de vida, mesmo que com poucos créditos. Até lá, sem razões para duvidar seja do que for, que gaste o seu tempo a reflectir sobre os erros de palmatória que infantilmente cometeu, sempre convencido de uma verdade que os votos não sufragaram.

Silêncio, caldos de galinha e uma longa cura de oposição só lhe farão bem.

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Publicado em Opinião