Papa Don’t Preach

Hoje vemos esse amigar na política, na banca, no futebol e até num dos pilares fundamentais de um estado de Direito, a justiça.

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  • 17:35 | Domingo, 27 de Setembro de 2020
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Este é o título de uma conhecida música de Madonna inserida no álbum “True Blue” surgido em 1986.

Ninguém gosta de sermões, mas hoje veio-me à mão o “Sermão do Bom-Ladrão”, do Pe. António Vieira, pregado em Lisboa, na Igreja da Misericórdia, em 1655.

Confesso que considero Vieira um dos nomes grandes das letras nacionais. Leio-o com frequência. O seu rigor discursivo e a forma como organiza a sua oratória, sempre pisando gelo fino, é um modelo da mais excelente e superior prática da língua portuguesa.


Meio a brincar costumo dizer que para “lavar“ a cabeça da porcaria que se acumula no quotidiano, o melhor shampoo é ler Aquilino e Vieira.

Independentemente de se terem escoado quase quatro séculos sobre a pregação dos sermões de Vieira, eles mantêm-se actuais em grande parte da sua temática, conferindo-lhes uma intemporalidade que subjaz a toda a obra de génio. Ontem e hoje, os Sermões de Vieira incomodaram e muito os poderosos da época. Incomodar o poder não é tarefa fácil, mais fácil sendo e ele nos amigarmos. Mas isso é outra conversa…

Hoje vemos esse amigar na política, na banca, no futebol e até num dos pilares fundamentais de um estado de Direito, a justiça.

 

No Sermão do Bom-Ladrão, Vieira crítica os governantes (do Brasil) que têm por hábito saquear as regiões que governam, alertando ainda para a corrupção que por ali grassa cabonde.

É um sermão que não se dirige aos miseráveis e sim aos reis e poderosos… “nem os reis podem ir ao paraíso sem levar consigo os ladrões, nem os ladrões podem ir ao inferno sem levar consigo os reis…”

E vai adiante pregando, acerca de muitos detentores do poder que dizendo perseguir ladrões, são mais criminosos que esses: “Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor,  que eu porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.

Pois é caro leitor… comentários para quê? Os Alexandres são de ontem e de hoje. A sociedade está infestada deles e nos mais inesperados cargos, muito roubam.

A certo passo, conta Vieira que o verbo rapio, na Índia, segundo S. Francisco Xavier em informe a D. João III “se conjugava por todos os modos” e que tal já vem da “etimologia de sátrapas que eram os governadores das províncias, diz que este nome foi composto de sat e de rapio. (…) Chamam-se sátrapas, porque costumam roubar assaz. E este assaz é o que especificou melhor S. Francisco Xavier, dizendo que conjugam o verbo rapio por todos os modos.

E está na hora do chá nesta caseira tarde de domingo, palavra que vem do latim dies dominica, dia do senhor. Pois será, até o meu dia… E enquanto  água não ferve, quedo-me com Bud Powell e o seu disco “Just one of those things” que abre com “Tempus Fugit “ … e apesar disso, eles, os ladrões, multiplicam-se e achando o terreno pródigo, no “cargo” vão-se perpetuando…

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