“Os opressores juntam-se / Mas os oprimidos andam desunidos.”

“Há mais pedintes nas esquinas e putas nas vielas”, desabafa desalentado um magistrado amigo, cansado de julgar ladrões de pão. O sr. Alberto enforcou-se numa trave da cozinha, para não ir roubar, mas só deram por isso 156 dias depois. Ninguém o deteve.

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  • 17:49 | Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2021
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Sim, esse povo é gente boa, eles

Podem fazer tudo, tudo menos agir”

Pound, E. – Os Cantos (XVI), Assírio & Alvim

 

Há nos rebanhos de ovelhas que pastam tranquilos nos prados uma serenidade oriunda da frescura da erva, do odor da terra, do trilar da avena, da sombra dos mastins, do cajado nodoso e do vulto seco do pastor. Tal bonomia… Não sabem que depois da engorda, da tosquia e da cria, a lâmina acerada, breve, certeira as esvairá num espasmo inútil sobre a laje fria. Ciclos encadeados em anéis de uma corrente infinda, forjada no lume das cavernas e às cinzas do fogo regressados.

O Ano, que chamam de Novo, apesar dos seus 2021 pesados calendários, chegou de dias dados à noite e com uma frieza no vento sopradora de maus augúrios. Em fila, marcialmente alinhados, os vendilhões da usura apregoaram os novos custos de um viver escasso. A angústia cresceu com as unhas rapaces e os bolsos ficaram mais vazios. E os estômagos. Farto, só o frio que cresta as hortas e os ossos dos velhos sem achas nas fogueiras abandonadas.

Ikónnikov já mal sabe que terra o correu. Foi deixado para aí, numa cama com lençóis, num hospital. Convalescido do corpo, mais brando de cabeça, olhou em redor e com a leve trouxa na mão esquerda, especou-se no jardim das Mães, sem saber onde estava, nem o que fazer. Desceu trôpego até à Cava, comprou um garrafão de vinho reles e atrás do Viriato, seminu porque é de bronze, abrigou-se sob um tecto roto, deitou-se sobre um soalho esburacado cortado por uma parede esboroada onde esbarrava o frio maior. Aqueceu-se no vinho até gelar o sangue dilatado de cansaço nas veias encordoadas e duras.

A gente boa que junta faz um povo que só no hino esquecido grita, envergonhada, “às armas!”, recolhe-se à noite, tensa e zangada com o fado. Tem pesadelos porque há três meses que não paga a renda de casa. Pensa saber, agora, qual o fim do mundo anunciado.

Amanhã, entrará na fila dos que, olhos baixos, voz sumida e mão estendida receberão o cabaz de Natal – que é natividade – dos braços amigos e afadigados de esmolas dos fariseus. “Próspero 2021”, auspiciam-lhe como uma ordem amistosa e vil.

“Há mais pedintes nas esquinas e putas nas vielas”, desabafa desalentado um magistrado amigo, cansado de julgar ladrões de pão. O sr. Alberto enforcou-se numa trave da cozinha, para não ir roubar, mas só deram por isso 156 dias depois. Ninguém o deteve.

“Os opressores juntam-se

Mas os oprimidos andam desunidos.” — Brecht, B.

Porque andamos a desejar um feliz ano novo? Perduramos a fórmula num significante sem significado. E assim, o signo, claudicante, não passa de uma borboleta brilhante e morta.

 

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