O Pavia… de Mundão ao Dão

Dez tostões, imaginem! Hoje não vale isso o executivo que estoura milhões num concelho que tendo o Pavia a seus pés o ignora e emporca mandato após mandato. Adiante, melhor pensar que a mesma água nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte e para o ano há eleições!

Fernando Figueiredo Fotografia Direitos Reservados

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  • 16:15 | Sábado, 29 de Agosto de 2020
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Não é de agora e a relação rio – cidade sempre foi um aspecto primordial para o desenvolvimento urbano. A disponibilidade de água constituía um dos principais factores para o estabelecimento dos povos e os rios não forneceram somente a água como recurso escasso para a população ou para a agricultura irrigada, mas serviram também como os principais meios de comunicação, como vias de transporte para as mercadorias etc.

A história dos rios corresponde, em grande parte, à história das suas cidades: pontos de passagem, lugares de encontro, centros de intercâmbio, locais de protecção, etc. Portanto, a dinâmica do desenvolvimento de uma cidade tem muito a ver com as funções do seu rio, a importância fluvial revela-se, via de regra, na organização espacial da cidade. Pontes, cais, embarcadouros, portos fluviais formam, ainda hoje, em muitas cidades europeias os pontos estratégicos, os espaços de centralidade e os lugares emblemáticos na cidade.

A relação rio – cidade não é estática, nem estável. Ela depende de muitos factores: de ciclos económicos, das formas de comunicação e de transporte, dos processos de expansão urbana, das políticas e do planeamento urbano, do comportamento dos habitantes.

A relação rio – cidade, nas últimas décadas, tem passado por mudanças cíclicas entre decadência / degradação por um lado, e revalorização / revitalização por outro. Neste sentido, pode-se observar nos últimos anos em quase todas as cidades europeias que se localizam na beira de rios, após um longo período durante o século XX, em que os rios caíram no esquecimento, uma re-configuração das relações rio – cidade em direção a uma revalorização / revitalização, convertendo áreas decadentes e degradadas em lugares de alta atractividade e em focos actuais de desenvolvimento urbano. Cada vez mais, o rio é percebido como lugar atractivo que dá uma identidade específica à cidade, causando uma valorização progressiva das margens urbanas dos rios através de diversas funções.

Certamente que o leitor já percebeu onde o quero mergulhar, numa visão diferente do actual Pavia, longe claro dos grandes projetos “waterfront” do London Docklands em Londres, do Speicherstadt e HafenCity em Hamburgo, ou dos projetos em Lisboa, Barcelona, Oslo, Roterdão ou Paris, para citar os mais significativos mas ainda assim, num projecto diferenciador à dimensão da região e capaz de mudar a filosofia da cidade.

O rio Pavia é uma pequena linha de água (39km), afluente do rio Dão – desaguando junto a Ferreirós do Dão – fazendo parte da bacia hidrográfica do rio Mondego, a maior bacia integralmente nacional. O rio apresenta um caudal médio muito reduzido, com uma variabilidade anual e interanual relativamente significativa.

A sua “histórica” má qualidade da água fez com que tenha sido ano após ano desconsiderado pelos viseenses. Mas nem sempre foi assim, o então chamado “Rio das Barcas” chegou a ter até clubes como o Sport Ribeira e Viriato, cujas cores, vermelho e negro, Gonçalo Pais da Costa defendeu com brio e sucesso nas águas do Pavia. Também ali “O Viriato”, clube nascido em 1911, foi uma associação onde conviveram viscondes e sapateiros e que para além da natação teve equipas de “Foot-ball” e a secção de Remo, além dos animados e bem afamados bailes, capazes de fazer corar de vergonha as actuais matinés dos cotas da Mamma Mia.

José Madeira, falecido em 1992, desportista, atleta e professor de outros grandes atletas, democrata exemplar, poeta dos Postais da Cidade, guia turístico, admirado por todos os viseenses, escolhido pelo escultor Mariano Benliure para modelo da estátua de Viriato nos anos 80, creio, cantava assim o Pavia pelo pseudónimo de Ricardo Sandro:

(…)

Aos domingos – quando as lojas abriam

Para encerrarem ao meio-dia

Os caixeiros e os marçanos, todos sentiam

A fluvial euforia

De passarem a tarde nas águas do Pavia

Coisa que hoje nem se acredita!…

 

…Naquele tempo belo – existia

Uma marinha viseense!

As barcas da tia Cristina e da tia Rita

(Como tudo isto desapareceu)

Se recordar é vida que se renova

Pois o futuro a Deus pertence

– Meto-me numa barca e lá vou eu!…

 

… Passar a ponte, à vara – sem lhe tocar

singrando nas águas profundas da Parede Nova

sempre a remar a bom remar

rumo ao Poço do Nicolau

para chegar depois – ao areal da Cerdeira

lembrando praia das areias finas

atracando a barca, à sombra dos amieiros

despejo a jarra que enchi no Júlio da Ribeira

Petiscando bolinhos de bacalhau !…..

Vou até ao areal das “meninas”!

 

Onde faço juízos matreiros

Umas vezes à vara – outras a remar

Quantos foram hoje os meus companheiros

Nesta barca da saudade a navegar

Até às Três Pedras, até à Ponte de Pau?…

 

… às vezes fico a meditar

Quando escrevo estas recordações

Como era possível:

 

Remar!

Mergulhar!

Nadar!

Lanchar!

Navegar!

 

Uma tarde inteira

Nas barcas da Ribeira

Por pouco mais de dez tostões!…

 

Dez tostões, imaginem! Hoje não vale isso o executivo que estoura milhões num concelho que tendo o Pavia a seus pés o ignora e emporca mandato após mandato. Adiante, melhor pensar que a mesma água nunca passa duas vezes por baixo da mesma ponte e para o ano há eleições!

O Pavia que conheceu melhorias significativas no tempo de Américo Nunes enquanto vereador com este pelouro, no âmbito do programa ViseuPolis chegou a conhecer num plano original que João Gomes da Silva, arquitecto paisagista, concebeu a possibilidade de inclusão de uma praia fluvial, da construção de uma piscina, da criação do “Clube de Rio/Restaurante”, da recuperação do moinho, da levada e das casas da quinta.

Disto apenas uma ínfima parte aconteceu e continuamos hoje, à espera das prometidas 3 represas a construir no Catavejo, Travassós de Baixo e Moure para que passe a haver um espelho de água todo o ano no Rio Pavia e o Parque Linear do Rio Pavia não continue a ser motivo de pilhéria.

É facto evidente contudo que paralelamente à regeneração urbana no âmbito do Programa Polis, no início do séc. XXI, com diversas intervenções, como a coleta de águas residuais que em parte descarregavam diretamente para o Rio, a qualidade da água do rio Pavia sofreu uma melhoria significativa, o que dá para o leitor fazer uma ideia do cenário anterior e da degradação a que se deixou chegar o rio.

Também eu em tempos sonhei com um outro Pavia na cidade, e aqui relembro, “um espaço renovado onde pontua um grande lagos artificial na praça da antiga feira semanal que foi relocalizada para o interior da Cava de Viriato, e onde encontramos bares esplanadas na sua maioria deslocalizados do centro histórico para esta zona, restaurantes, áreas comerciais, artesanato local, oficinas ligadas à arte e lazer e clubes de desporto náutico. Ali e por todo o Pavia na cidade os pequenos barcos e catamarãs eléctricos e solares são às dezenas para gáudio dos turistas e visitantes, além de espaços para a prática de nautimodelismo e de eventos vários ligados à água. Ao longo de todo o percurso citadino da cidade onde foi possível tecnicamente conciliar a vida do rio com as margens da cidade hoje há uma zona alagada de água limpa, cristalina onde além do olhar banhistas, turistas e habitantes se deliciam com o prazer da água.

A cidade virou-se para o rio, vive do e para o rio e a quantidade de empregos directos e indirectos criados trouxe mais gente e mais vida a esta zona apagada da urbe. O centro histórico ficou mais visitável e o vaivém da calçada de Viriato não tem um minuto de descanso. O número de eventos que os privados promovem cobre na sua quase totalidade a maioria da procura dos residentes e turistas.

Ao lado do rio agora navegável, o verdadeiro “rio das barcas” engalanado, há zonas verdes ajardinadas e dotadas de equipamentos como casas de banho, esplanadas, percursos pedestres, parques infantis, zonas de “caça ao tesouro” e percursos de cordas que cativam diariamente os mais jovens e fisicamente destemidos.”

Dir-me-ão alguns que a utopia serve para caminhar, mas que é preciso ter os pés no chão, ou seja, é impraticável tal desígnio. Já outros o tentaram e desistiram, mas o facto é que nem tudo é igual, uns pintam o cabelo e outros são carecas. O segredo está em estudar as boas práticas e melhores soluções a par de uma definição rigorosa de prioridades em função da estratégia planeada de médio/longo prazo.

Deixo a titulo de exemplo aqui uma boa mão cheia de soluções, bastando estudar os locais e alocar os orçamentos correspondentes sendo que, hoje com parceiras privadas, boa gestão e ausência de corrupção, tudo é possível fazer. Vejamos, para tratamento da poluição ou águas turvas https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/aerated-vertical-helophyte-filters/, para drenagem da água das zonas circundantes ao rio estas soluções https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/gravel-layerstrenchesreverse-drainage/ ou https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/seasonal-storage/, para a captação de água para o rio https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/bioswales/nature-friendly-bioswales/?s=bio%20swales e por fim, soluções para o espaço público https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/private-or-communal-initiatives/community-gardens/ e/ou https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/infiltration-meadows-and-infiltration-strips-with-above-ground-storage/ com diversificação de espécies nativas adequadas a períodos de seca e com abundância de chuva https://www.urbangreenbluegrids.com/measures/1829-2/

Não temos mar nem o teremos dia algum, não temos montanha nem teremos nunca mas podemos ter um “spot” turístico fantástico na região que acrescente valor à cidade.

O centro histórico, outro problema sério na cidade é visitável numa manhã e pretender imaginá-lo classificado como património da UNESCO isso sim, é pura utopia para não dizer completa demagogia política. Até a oposição na cidade já percebeu isso ao sugerir Oslo, na Noruega, e a revitalização a que foi sujeito o Akerselva (Aker river) como exemplo que Viseu – conhecida como a cidade jardim e que já mereceu algumas distinções ao nível do ambiente e da qualidade de vida – devia seguir.

A pandemia hoje limita a nossa vontade física de viajar mas até mesmo para aqueles para quem o Rossio e o seu umbigo são o centro do universo basta um clique para ficarmos a conhecer outras realidades e o pretenso modelo para o Pavia aqui fica para vosso regalo https://youtu.be/MiZSC_RQlYo.  Que tal? E a S. Pedro do Sul já foram ver o que está a acontecer? Nós viseenses não conseguimos fazer igual ou melhor? Fazer desta cidade um verdadeiro jardim à beira rio? Têm a certeza?

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