O futebol e a bicicleta

O senhor Alberto Lobo, morador numa aldeia dos arredores de Mortágua, leitor assíduo de A Voz Desportiva, conhecedor das sérias dificuldades de deslocação impostas pelo racionamento de gasolina, recebeu com espírito a notícia de que muitos futebolistas e árbitros se viam submetidos à «prática forçada do cicloturismo» para comparecerem em campo. Veio-lhe a memória um […]

  • 9:44 | Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019
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O senhor Alberto Lobo, morador numa aldeia dos arredores de Mortágua, leitor assíduo de A Voz Desportiva, conhecedor das sérias dificuldades de deslocação impostas pelo racionamento de gasolina, recebeu com espírito a notícia de que muitos futebolistas e árbitros se viam submetidos à «prática forçada do cicloturismo» para comparecerem em campo. Veio-lhe a memória um episódio ocorrido em Setembro de 1939, quando se preparava o fecho da inscrição dos clubes no campeonato da associação de futebol de Viseu e, em Mortágua, faltava dinheiro para as taxas de filiação. Era costume que ele e alguns mais abrissem os cordões à bolsa e resolvessem o problema na última hora. Desta vez, porém, cansados desse esforço pecuniário e das despesas da temporada, concluíram que não podiam continuar a pagá-las a título individual. Isso corresponderia à morte do Mortágua Clube.

Era habitual a realização de jogos amigáveis. Uma manhã chegou o convite do Clube Desportivo de Tondela. Os dirigentes de Mortágua negociaram a participação, choraram mais cem escudos e conseguiram a oportunidade de obter uma receita suplementar valiosíssima. Mesmo assim, era imperativo moderar as despesas. É aqui que entram as bicicletas e as palavras de Alberto Lobo.

«E então estabeleceu-se o seguinte plano: até Santa Comba Dão, metade do percurso, o transporte seria feito em bicicletas, fáceis de obter em Mortágua, onde há uma em cada porta. Dali a Tondela em dois automóveis, em que se empilhariam doze viajantes: onze jogadores e este vosso criado. Na volta tomavam-se as bicicletas de novo em Santa Comba. A coisa, feita assim, deixava-nos um saldo de cerca de cento e setenta escudos – quási o necessário para o aperto. Os rapazes – aqui os saúdo agora – concordaram de boa vontade com o esforço de pedal que se lhes pedia, não obstante houvesse a vencer as íngremes subidas do Valongo e Criz – dois gigantes.

E no domingo, pelo meio-dia, vá de abalar, pedalando, equipamento às costas, para Santa Comba, encontrando até certa graça no caso. Chegámos a horas a Tondela. Apesar dos quilómetros da bicicleta – que o Tondela ignorava e, julgo, ainda ignora – empatámos a duas bolas. Resultado que nos satisfez, pois o adversário tinha um bom team, como o provou no decorrer da época – e aí está a parte não menos interessante da história.»

Há uma curiosidade suplementar. Mortágua e Tondela mantiveram nessa época uma luta cerrada, até à última jornada, pela vitória no campeonato distrital, que caiu para os mortaguenses, e no campeonato provincial, que se decidiu num a fial entre as duas equipas, que, explica Alberto Lobo, «o Mortágua ganhou por 4-3, mas com uma segunda parte aflitiva, daquela em que os ponteiros do relógio parece que não giram… Quando em Mortágua se comemorou essa vitória, que levou o clube aos oitavos do Nacional, poucos se recordariam que fora, afinal, o nosso valoroso competidor quem fornecera os meios do triunfo. E o Tondela nem por sonhos o imaginaria…»

Nuno Rosmaninho

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Publicado em Opinião

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