O beijo de Rubiales e os abusos sexuais no desporto

O defensor de Rubiales mais famoso a nível mundial foi Woody Allen, que, em entrevista ao El Mundo, lamentou a condenação daquele ao desemprego: “Nem a beijou num beco escuro, nem a estava a violar, foi só um beijo e ela era uma amiga. Que mal é que isso tem?” Fraca testemunha abonatória, quando o realizador foi acusado há cerca de trinta anos, pela própria filha adoptiva (dele e de Mia Farrow), Dylan Farrow, de ter abusado sexualmente dela quando tinha apenas sete anos.

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  • 9:41 | Quinta-feira, 14 de Setembro de 2023
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Bem sei que muitos leitores já devem estar fartos de ler artigos de jornais e comentários nas redes “sociais” sobre o beijo de Rubiales, presidente da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), na boca da jogadora Jenni Hermoso, durante a entrega da taça do Campeonato  do Mundo de Futebol Feminino, mas não posso deixar de lavrar a minha indignação perante alguns artigos de opinião e crónicas de pessoas com influência nos “media”, tentando justificar ou atenuar um acto verdadeiramente condenável.

O defensor de Rubiales mais famoso a nível mundial foi Woody Allen, que, em entrevista ao El Mundo, lamentou a condenação daquele ao desemprego: “Nem a beijou num beco escuro, nem a estava a violar, foi só um beijo e ela era uma amiga. Que mal é que isso tem?” Fraca testemunha abonatória, quando o realizador foi acusado há cerca de trinta anos, pela própria filha adoptiva (dele e de Mia Farrow), Dylan Farrow, de ter abusado sexualmente dela quando tinha apenas sete anos.

O realizador nega, mas apesar da investigação de uma equipa hospitalar não ter encontrado provas, o filho biológico, dele e de Farrow, Ronan Farrow, jornalista, apoia a versão da irmã. Por isso, na passada segunda-feira, Woody foi vaiado por críticos e manifestantes ao chegar ao Festival de Veneza, onde, no entanto, o seu talento cinematográfico mereceu uma grande ovação após a exibição do seu novo filme.


Entre nós, o artigo de Miguel Sousa Tavares, no Expresso de 1.09.23, vai mais longe na vitimização: “(…) Rubiales vai a caminho do cadafalso, expurgado de entre a gente civilizada pela Europa dos valores, a mesma que abandonou as mulheres do Afeganistão à barbárie talibã, e abandonado à sua merecida sorte pela UEFA e pela FIFA (…)”. Enfim, demagogia barata! Na mesma onda foi João Lopes, o conhecido jornalista e crítico de cinema, que, na sua coluna no D.N. do dia 3, usa expressões como “nova ditadura moral”, “fogueira de virtudes em que Rubiales será reduzido a cinzas”, pela “opinião pública”, essa “multidão obscena, sem pensamento”;  “histeria”, “mediatização pueril do #MeToo (…) em que a noção de vingança contra o colectivo dos homens funciona como lei implícita”; “tempestade mediática”,  em que “no limite, cada homem é apenas um violador potencial”; “potencial demonização de todos os homens”.

Dois exemplos de uma série de artigos de defesa do “macho ibérico”, em que  o denominador comum é a culpabilização da vítima, na sequência da cobarde defesa de Rubiales, dizendo que o beijo foi consensual, recorrendo aos vídeos postos a circular, mostrando Jenni a abraçar Rubiales, levantando-o do chão, ou as jogadoras no balneário a brincar com a cena do beijo, e, sobretudo, com o argumento mais ignóbil: Hermoso não repudiou Rubiales no momento do beijo.  Ou seja, num momento único da vida das jogadoras, em que tinham acabado de conquistar a taça do Mundo, queriam que Jenni quebrasse a emoção e a alegria que sentia dando uma estalada no presidente da RFEF, ou que as jogadoras estragassem a sua festa reagindo negativamente. Como se as mulheres não tivessem aprendido, ao longo dos séculos, a resistir ao assédio sexual nos locais de trabalho por parte de superiores hierárquicos, com jogo de cintura, à defesa, silenciando a sua aversão. Só recentemente, movimentos como o #MeToo, na sequência de décadas de lutas feministas, deram um impulso global à denúncia destes casos de abusos sexuais, em várias áreas, do cinema às universidades, passando pelo desporto.

Graça Castanheira, realizadora, descreve, num artigo no Público do passado dia 3, a reportagem de 2021 “Romper el silencio: la lucha de las futebolistas de la selección”:  “Nela se vê o antigo treinador espanhol Ignacio Quereda a beliscar e beijar jogadoras” e a “luta do painel feminino para que o treinador fosse substituído”, por “abusos repetidos, com insultos e humilhações, em público e em privado”. Quereda foi mantido durante 27 anos à frente da selecção nacional. Em 2015 conseguem que seja substituído por Jorge Vilda, “apesar de existirem várias mulheres posicionadas para ocuparem o cargo de treinadora”. “E a história repete-se: Vilda persiste na exigência de que as jogadoras deixem as portas dos seus quartos abertas durante as residências de treino”. “A equipa organiza-se de novo: exigem portas fechadas, melhores condições de trabalho e de repouso, fisioterapeutas, nutricionistas e preparações consistentes”. Chegado a presidente da federação, Rubiales atende as exigências, “mas em troca mantém Vilda como treinador, que acumula com o cargo de director desportivo”. “Quando o presidente da federação aparece fora de campo – e fora de si – a celebrar a equipa a que preside com o treinador, rouba alegria e protagonismo ao que as jogadoras fizeram dentro do campo, e isso nem sequer é só machismo: é um verdadeiro saque moral”. Na “mouche”!

Rubiales acusou as jogadoras de “falso feminismo”, no que foi aplaudido pelos membros da RFEF, incluindo Vilda, que, mais tarde, lamentou o comportamento impróprio do presidente. O que não impediu que o treinador acabasse demitido, no passado dia 5, por diversas acusações de abusos de algumas jogadoras que já se tinham recusado a jogar no mundial da Austrália/ Nova Zelândia se Rubiales o mantivesse no cargo. De realçar que a selecção espanhola masculina de futebol, solidária com a equipa feminina, repudiou o comportamento inaceitável de Rubiales. As equipas masculinas do Sevilha e do Cádiz entraram em campo, respectivamente, com camisolas com o lema “#SeAcabó” e “Todos somos Jenni”.

Os abusos sexuais no desporto são tão escandalosamente abrangentes e globais, como é a pedofilia na Igreja Católica. Nos EUA, uma investigação independente provou uma “prática sistémica de assédio e abuso sexual e emocional no futebol feminino, enraizado numa cultura mais profunda de normalização de um tipo de treino abusivo sobre crianças e jovens no futebol feminino, sem que as ligas e instituições desportivas respondam adequadamente a denúncias”. O tabu que silenciou as vítimas foi quebrado pelo caso de Larry Nassar, antigo médico da selecção de ginástica, condenado a mais de cem anos de prisão por ter abusado sexualmente de mais de cem raparigas menores ao longo de três décadas de treinos, incluindo 3 campeãs olímpicas. Cem treinadores já foram banidos do desporto nos EUA. Andy King foi condenado a 40 anos de prisão por abusos sexuais ao longo de mais de 30 anos, com atletas adolescentes. 

No Reino Unido, também foram condenados treinadores de várias modalidades, por abusos sexuais.

Em Portugal, há poucos dados, mas futebolistas do Rio Ave denunciaram, em 2020/21, o assédio sexual do então técnico do clube que também treinou o Famalicão. Em 2022, o Observatório Nacional de Violência Contra Atletas revelou ter recebido 20 denúncias desde Setembro de 2020, com uma média de idades das vítimas, a maioria femininas, abaixo de 18 anos, em várias modalidades, incluindo o futebol. Alexandre Mestre, no Expresso, lembra o caso de uma ex-jogadora e árbitra de basquetebol que em 2021 denunciou o assédio/abuso sexual por parte de um árbitro. Mas no regulamento disciplinar da Federação de Basquetebol, como nas outras, não existe norma específica sobre assédio/ abuso sexual com correspondentes sanções disciplinares, como já está previsto no Regime Jurídico das Federações Desportivas para a violência, a corrupção, a dopagem, o racismo e a xenofobia.

John Macinees, sociólogo, na sua obra, “O Fim da Masculinidade”, defende a tese de que “a masculinidade não existe enquanto propriedade, traço de carácter ou aspeto da identidade dos indivíduos. (…) existe apenas sob a forma de ideologias ou fantasias diversas, sobre o modo como «deveriam» ser os homens, que os homens e as mulheres desenvolvem para melhor conseguirem compreender as suas próprias vidas”.

Em conclusão: “as diferenças sociais entre homens e mulheres, incluindo o seu poder relativo, estatuto e recursos não são a expressão social de uma diferença natural entre ambos, mas o material (fraccionado) e a herança ideológica de uma ordem patriarcal incompatível com a modernidade e com o universalismo”.

         A masculinidade é tóxica por natureza!

 

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Publicado em Opinião