Lagarde ou En garde?

Qual estabilidade, ou melhor, a estabilidade de quem e à custa do descalabro de quem? Lá em Frankfurt am Main, Fraü Lagarde saberá a quem prestar contas e dar conta dos cadernos de encargos que guarda na sua pasta Vuitton…

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  • 17:58 | Sábado, 17 de Dezembro de 2022
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Segundo o BCE, o principal objectivo da sua política é o de “manter a estabilidade dos preços, preservando o valor do euro”.

Para tal, o BCE utiliza três instrumentos principais: as operações de open market, as facilidades permanentes e as reservas obrigatórias.

As operações de open market são aquelas efectuadas segundo as condições do mercado, que dão resposta a três finalidades: Gestão das taxas de juros, gestão da liquidez bancária, sinal de orientação da política monetária.


Manter a estabilidade dos preços obriga a manter a taxa de aumento dos preços (inflação) a 2%, a médio termo.

Para controlar a inflação, o BCE pode actuar sobre a taxa preferencial ou a quantidade de dinheiro que emite.

Em julho de 2021 o BCE definiu uma meta de inflação de 2% para atingir a estabilidade dos preços e reforçar a proteção contra o risco de deflação favorecendo a ancoragem das expectativas de inflação.

Estes 2% asseguram, dizem, uma margem de segurança que permite prevenir qualquer risco potencial de deflação, que não é mais que o oposto de inflação. A deflação caracteriza-se por uma descida duradoura e autossustentável do nível geral dos preços

Para medir a evolução dos preços utiliza-se o Índice Harmonizado de Preços ao Consumidor (IPCH) que se calcula a partir da evolução do preço de um cabaz de produtos de consumo doméstico, entre dois períodos. É necessário que este índice seja negativo durante vários trimestres para que possamos falar de deflação.

Nos países desenvolvidos apenas se constataram duas situações de deflação nos últimos 100 anos: A deflação de 1930 que começou nos EUA e chegou à Europa e, em finais de 90, a que atingiu a economia japonesa. Em ambos os casos, a deflação surgiu na sequência de um choque financeiro (crash da bolsa nos EUA em 1929 e o alastrante crash da bolsa e imobiliário no Japão, 1990/92).

Christine Lagarde, à cabeça do BCE desde 2019, é o rosto desta política dita de combate à inflação. Mme. Lagarde afirma ainda recear as políticas fiscais de certos governos europeus que podem levar a uma procura excessiva em economias onde a oferta é limitada e, assim, em prol desta cruzada, que terá alguns eventuais beneficiários à custa da asfixia de milhões de europeus, Mme. Lagarde vai-nos empobrecendo gradualmente e de forma irreversivelmente insustentável, para muitos.

Hoje, a invasão da Ucrânia por Putin tem servido de almofada de conforto para todos os tipos de especulação e tem garantido a decuplicação das megas fortunas de uma mão cheia de nababos à custa da miséria dos povos.

Albert Camus explicava um fenómeno relativamente análogo no seu livro “La Peste” (Gallimard, 1947), quando, numa espantosa alegoria, os “ratos” invadiam uma cidade outrora feliz (Oran) e semeavam o seu vírus e com ele a morte dos seus habitantes. Sabendo nós que a cidade em causa era a França e os ratos as tropas nazis que invadiram este país, em 1940.

Há sempre “ratos” prontos a sair dos esgotos fétidos onde se abrigam para espalhar o mal. Convinha saber, com clareza, quem hoje lhes veste a pele e quem, real e concretamente, beneficia com as esmagadoras políticas como as do BCE, o tal banco central que tem como objectivo preservar o poder de compra do euro, assegurando assim a estabilidade de preços…

Qual estabilidade, ou melhor, a estabilidade de quem e à custa do descalabro de quem? Lá em Frankfurt am Main, Fraü Lagarde saberá a quem prestar contas e dar conta dos cadernos de encargos que guarda na sua pasta Vuitton…

“Dans un monde où la demande extérieure est incertaine, nous aurons également besoin de renforcer l’offre et la demande intérieures en stimulant la productivité”, diz ela…

Estimular a produtividade é conceito que dava para uma magna novela, principalmente se à custa de salários de miséria e do pendente  e assustador espectro do desemprego, que começam a ter como resposta generalizada o “quiet quitting”, essa forma fatal de responder em silêncio a quantos ainda veem nos seus colaboradores escravos d’antanho…

 

Nota: A pesquisa para parte deste editorial foi feita no próprio site do BCE e em declarações de Lagarde a vários órgãos de CS europeus.

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Publicado em Opinião