Gosto

Gosto do que fica interrompido nas reticências, na curiosidade que deixam, na expectativa que criam, no apetite que aguçam.

Tópico(s) Artigo

  • 12:30 | Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026
  • Ler em 2 minutos

Gosto do que digo e ainda mais do que não digo.

Gosto do que fica por dizer.

Do que não posso dizer, do que não consigo dizer.


Do que não me atrevo a dizer, por vergonha ou por cautela.

Do que não posso dizer, que fica melhor dito, não o dizendo.

Do que imaginam que eu possa ter dito.

Do que supõem sobre o que não disse.

Gosto do encanto do não desdito e do mistério do não dito.

Por vezes, gosto de esconder as palavras, encostar as frases.

Trocar-lhes o sentido.

Gosto do que fica interrompido nas reticências, na curiosidade que deixam, na expectativa que criam, no apetite que aguçam.

Gosto do que fica escondido nos etceteras.

Gosto das entrelinhas, das suposições, das especulações.

Gosto dos subentendidos.

Gosto das palavras que se vestem de letras e dançam com os sons.

Gosto das palavras que arregaçam as mangas.

Gosto de palavras inquietas, desassossegadas, irrequietas.

Gosto de palavras de touça funda e rija de fazer ranger os ossos ao puxá-la.

Gosto de lhes acariciar o corpo e amaciar a alma.

Gosto de palavras alcoviteiras, metediças, que carregam o pensamento e o levam e trazem ao vento.

Gosto das palavras que confundem e fazem confusão.

Gosto de encarreirar palavras vagabundas, vadias, tresmalhadas, dar-lhes tino, pô-las no rego.

Gosto de palavras desconstruídas, às avessas.

Gosto de coser as palavras, tirando-as do desalinho.

Gosto das palavras esgaçadas para logo as recompôr.

Gosto de juntar as palavras e fazer pontes com elas.

Gosto de fazer tranças com as palavras, e novelos também.

Gosto de tropeçar nas palavras soltas e escorregar pelas sílabas molhadas.

Gosto do que fica incompleto, inacabado.

Gosto do estranho, do imprevisível, do inimaginável, do supostamente intocável.

Gosto das palavras sem campas rasas nem jazigos.

Gosto das palavras vivas, que amaciam ou ferem.

Gosto das palavras com sabor avinagrado ou melado.

Gosto das palavras que dão luta.

Não gosto de nada a fingir.

Gosto de sentir.

Gosto do que fica por fazer.

Gosto do que agita emoções e acorda sensações.

Gosto do que é perfeitamente imperfeito.

Sem cálculos nem equações.

 

Rebelo Marinho

Gosto do artigo
Palavras-chave
Publicado por
Publicado em Opinião