Epidemia do presentismo no trabalho

É hoje sabido que deste modelo de trabalho têm emergido novos riscos psicossociais.

  • 15:03 | Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018
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O advento da “revolução 4.0”, antecipa o fim da trajetória do tempo de trabalho que, gradualmente, parece querer englobar as 24 horas do dia, baseado na inevitável cultura de emprego mais flexível, assente no intra-empreendedorismo e em funções muito variadas (multitasking).

Os novos desafios do mercado de trabalho, por vezes assentes em resultados atingíveis por robôs e algoritmos, irão competir cada vez mais com as pessoas (as únicas capazes de resolver problemas complexos de uma forma transversal e flexível) cujo desempenho é regulado pelo ritmo circadiano, com influência sobre, por exemplo, o estado de vigília e sono.

É hoje sabido que deste modelo de trabalho têm emergido novos riscos psicossociais.

De acordo com a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho o “presentismo” laboral (comparência dos trabalhadores ao serviço, apenas para marcarem presença e não para produzirem) tem repercussões negativas para o desempenho das empresas”, tornando o trabalho disfuncional e a produtividade deficitária.

Os portugueses têm de trabalhar quatro meses para ganhar o salário de um dinamarquês, em parte porque parte da cultura organizacional portuguesa é permeável ao “presentismo”, associando-se erradamente o mérito profissional ao número de horas trabalhadas.

Agendar reuniões para horários que não permitem ir buscar os filhos à escola ou telefonemas e/ou e-mails ao fim de semana, ou em período de descanso, podem consubstanciar assédio moral (mobbing) e a situação torna-se grave, permitindo que se viole impunemente o direito a desligar-se fora do horário do trabalho.

Esta prática parece estar a generalizar-se fomentando a exaustão física e psíquica de trabalhadores qualificados (alguns precários) que, na atual conjuntura económica, vivem “pressionados” pelo medo de perderem os empregos, numa altura em que Portugal têm a taxa de depressão mais elevada da Europa.

A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho aponta para um crescimento deste fenómeno que pode resultar em danos na função cognitiva. Os critérios de diagnóstico indicam transtornos de stresse crónico, podendo provocar alterações estruturais no cérebro com a diminuição do volume do hipocampo. Tal situação pode ser atribuída a três razões principais: reorganização do trabalho ou precariedade profissional (72%), carga de trabalho excessiva (66%) e comportamentos inaceitáveis como a intimidação ou o assédio (59%).

O custo estimado do stresse crónico é de 240 mil milhões de euros por ano, sendo 136 mil milhões relativos a perdas de produtividade (incluindo baixas por doença) e 104 mil milhões de euros afetos aos custos associados a tratamentos e acompanhamento.

Para muitos trabalhadores e trabalhadoras, o “presentismo” é uma forma incontornável de viver, como se não houvesse alternativa para conciliar o bem-estar  e a produtividade no trabalho com a vida pessoal e familiar. Por isso surgem estudos e recomendações que indicam que o trabalho devia terminar com o fim de semana de três dias.

O “presentismo” é uma questão cultural que urge prevenir e combater no superior interesse da Saúde Pública e da Economia.

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Publicado em Opinião