E agora Coimbra?

Escrevo regularmente no Diário As Beiras há muito tempo, seguramente desde muito antes de 2008. Sempre falei livremente do que me preocupava, fazendo crítica, análise e propostas para os vários problemas que fui identificando. Os temas sempre foram variados, mas a cidade de Coimbra foi sempre um tema central. Seguramente, mais de 50% das minhas […]

  • 19:27 | Domingo, 07 de Julho de 2019
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Escrevo regularmente no Diário As Beiras há muito tempo, seguramente desde muito antes de 2008. Sempre falei livremente do que me preocupava, fazendo crítica, análise e propostas para os vários problemas que fui identificando. Os temas sempre foram variados, mas a cidade de Coimbra foi sempre um tema central. Seguramente, mais de 50% das minhas crónicas são sobre Coimbra. A propósito delas, muita gente me escreveu. Fui tomar café e conversar com várias pessoas que me pediam para trocar dois dedos de conversa a propósito de uma crónica. Uns elogiaram, outros só queriam comentar, mas alguns outros fizeram crítica feroz. Não me recordo de alguma vez ter sido insultado, mas recebi comentários desagradáveis e algumas pessoas deixaram de falar comigo. É curioso como revelar o que se pensa, argumentar sobre uma ideia, criticar uma realização, ou alertar para um problema, gera tanta inimizade. Isso permite-me concluir que pensar é um ato subversivo, muito mal compreendido e altamente perigoso. Eu senti-o várias vezes na pele, até onde não esperava. Quando isso acontece, para além dos 3 segundos de tristeza que me assolam, lembro-me sempre das abordagens na rua: “O senhor é aquele das beiras, certo? Olhe, esta cidade…”. E assim me falam de como mudavam as coisas, do que deveria ser feito, da sua vida, da sua família, da sua história em Coimbra, de onde vieram, porque estão aqui. É fantástico.

Tudo isto para vos dizer que se tenho uma ideia muita clara sobre a cidade de Coimbra devo-o, em muito, a este jornal e à crónica que aqui escrevo semanalmente. Muito obrigado ao jornal por todo este tempo e a todos os que perdem algum do seu tempo a ler o que escrevo. Podem discordar do que digo, mas tudo é pensado e é absolutamente sincero.

Dei comigo, no dia 4 de julho, a pensar o que escolheria fazer se tivesse a oportunidade de decidir, isto é, tendo em conta a realidade atual da cidade, a forma como olha para o mundo, aquilo que é o seu trajeto recente e os resultados que vemos atingir, mas também as potencialidades que tem e poderia explorar, o que faria em primeiro lugar para inverter a situação que vivemos e que me escuso de descrever. É bem evidente, não sendo muito útil apontar dedos ou sequer nomear responsáveis.

O que mais me preocupa é a acomodação. A população não está envolvida na gestão da cidade, não a debate, não é mobilizada para a sua dinamização e assiste, algo apática, a uma trajetória lenta, mas contínua, de desinvestimento e de irrelevância. Assiste com tristeza e lamento, mas pouco mais do que isso.

Aquilo que faria, se pudesse decidir, era aproximar a gestão da cidade das pessoas e promover a sua participação ativa. Promoveria um conselho de cidade, regular, provavelmente mensal, que permitisse envolver, com grupos de trabalho e participação livre, todos os interessados no futuro da cidade. Seria uma forma de ser transparente, de acompanhar as políticas desenvolvidas, mas essencialmente, uma forma de dinamizar a participação das pessoas, envolver profissionais de várias áreas e devolver à comunidade o controlo e o mecanismo de decisão sobre da sua cidade. Nada disso substituiria o trabalho técnico prévio, nem as propostas e políticas de um executivo, mas permitiria à comunidade envolver-se e, através disso, ganhar escala, sinergias, brio pela cidade, algum bairrismo e uma muito maior exigência de quem é eleito para dirigir os interesses da comunidade. Não me parece que isso seja muito difícil de fazer, mas é absolutamente decisivo e até disruptivo. O poder não gosta de ser questionado, detesta a transparência, não gosta de perguntas e detesta dar respostas. Eu acredito que isso é a forma mais eficaz de resolver problemas e transformar a sina de uma comunidade. Sim, começava por aí.

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Publicado em Opinião