Cristina Ferreira: sintoma de uma cultura que ainda romantiza a dor e fotografia

Uma delas, é o facto de ser considerado crime, com denominação própria, o ato de forçar alguém a ter relações sexuais. A isto chama-se violação, sem qualquer contorno ou justificação. Mas então porque é que continuamos a tentar encontrar justificação para este crime?

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  • 12:10 | Sexta-feira, 24 de Abril de 2026
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Existe uma grande percentagem de pessoas que se encontram indignadas com os comentários de Cristina Ferreira face à violação, em grupo, a uma jovem de 16 anos.

Por um lado, sinto algum alívio por perceber que existe um grupo significativo de pessoas que tem uma opinião oposta à da apresentadora, considerando repugnantes os seus comentários. Por outro, sinto bastante angústia ao perceber que ainda há, igualmente, uma quantidade relevante de pessoas, algumas com poder social importante, que defendem o discurso apresentado no programa.

É factual que em todos os debates, existe discordância. E, são, as divergências, as contestações e argumentações que permitem uma evolução, saudável, da humanidade. Porém, existem factos que não devem ser contestados e certezas que não podem ser irrefutáveis.


Uma delas, é o facto de ser considerado crime, com denominação própria, o ato de forçar alguém a ter relações sexuais. A isto chama-se violação, sem qualquer contorno ou justificação. Mas então porque é que continuamos a tentar encontrar justificação para este crime? Será que diz respeito ao desrespeito que a sociedade tem para com a mulher? Será que o prazer, pessoal, pode-se sobrepor ao bem-estar do outro? Não quero com isto excluir ou menosprezar as vítimas do sexo masculino, mas o número de vítimas é esmagadoramente do sexo feminino. Dados do INE reportam uma percentagem de 75% do sexo feminino e 25% sexo masculino (2025).

Acredito que exista uma panóplia de opiniões sobre o assunto, no entanto, não foi isso que me levou a escrever esta reflexão, nem tão pouco avaliar a quantidade de pessoas que foram a favor ou contra o discurso de Cristina Ferreira. O verdadeiro motivo, diz respeito, única e exclusivamente, a todas as pessoas que, de forma inconsciente (ou não), protelam esta visão machista e misógina na sociedade, especialmente nas comunidades educativas.

Quantos de nós, crianças, não fomos forçados a cumprimentar, com beijos, pessoas desconhecidas? Ou até mesmo sermos privados de contestar um apertão de bochechas ou um despentear de cabelo? Quantas de nós, jovens mulheres, ouvimos comentários que nos fazem aceitar comportamentos totalmente impróprios por parte de homens, muitas vezes amigos de/ou a própria família? Quantas de nós, mulheres, aprendemos a camuflar desconforto e insegurança porque nos habituaram, desde muito cedo, a não ouvir os limites do nosso corpo?

Felizmente, a sensibilização para estes temas tem tido uma adesão muito positiva, com literatura infantil que permite abordar temas como respeito e limites pelo próprio corpo e pelos outros. Mas, será que esta sensibilização está a ter o impacto desejado? Será que a comunidade que tem maior poder de influência sobre o comportamento humano está devidamente formada e preparada para agir em conformidade com o assunto?

Não, não está. Infelizmente, as comunidades educativas, tanto do setor privado como do público, são constituídas por equipas multidisciplinares, que, todos os dias e reforço a informação, todos os dias, estão em contacto com dezenas, centenas e milhares de crianças.

Quer em ambiente educativo, quer em ambiente livre (intervalos, brincadeiras livres, entre outros), os adultos responsáveis têm um papel ativo no desenvolvimento da criança. Direcionando o foco para as valências de creche, pré-escolar e primeiro ciclo, ciclos em que tenho um contacto mais direto, quantas vezes ouvimos comentários como “deixa lá, foi uma palmadinha de amor” ou “sabes o que dizia no meu tempo? Quantos mais me bates mais eu gosto de ti. Isso é só ele a mostrar que gosta de ti” ou até mesmo “não sei porque é que vens a chorar, se lhe tiraste o brinquedo primeiro, não te queixes”.

Acredito que todos vocês já ouviram estes comentários, quiçá, alguns até os tenham feito, em momentos cuja reflexão sobre as palavras ainda não era ponderada. É inevitável não termos, alguns de nós, caído no erro de dar uma resposta popular previamente estruturada, especialmente naqueles dias em que o cansaço e esgotamento emocional nos assoberba.

O meu objetivo não é julgar ou desvalorizar o trabalho de alguém, cuja dinâmica pedagógica tende a respeitar a criança, por utilizar expressões como as referidas. O meu único objetivo é convidar-vos a refletir, sobre as vossas palavras, as vossas atitudes e ações. Já pensaram que uma criança que ouve, constantemente, que a agressão física é sinónimo de amor, vai absorver essa informação como verdadeira? E a criança que pede ajuda e, só porque inicialmente não teve o comportamento mais adequado ou até fez o mesmo, não tem direito a ser ouvida e orientada? O que aprende se tiver de engolir os sentimentos?

São estas questões que devem pesar sobre nós, nós membros da comunidade educativa, nós pais, tios/tias, avós. Nós, que diariamente, conversamos com as nossas crianças, interagimos e moldamos a estrutura emocional e social dela. Somos nós, seres humanos com mais maturidade e experiência social, que temos de atuar de forma a que, os nossos comentários – tantas vezes sem maldade – não se transformem num novelo de toxicidade que, quando quisermos desenrolar, já não seja possível encontrar a ponta.

Esperemos que, o reflexo das nossas conversas paralelas, do nosso discurso preconcebido, não tenha um impacto irrefutável no futuro das nossas crianças. No teu filho, como agressor. Na tua filha, como vítima.

 

Carina Ferreira

Educadora de Infância

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