Chocado e envergonhado

Confesso-me chocado com o que vi e ouvi na reportagem da TVI sobre o processo de reconstrução de casas em Pedrógão. O que vi a seguir também não me deixou mais tranquilo. Da reportagem da Ana Leal registei a esperteza saloia que permite tirar partido do dinheiro dos contribuintes, mas também daquele dinheiro que foi […]

  • 14:42 | Sábado, 25 de Agosto de 2018
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Confesso-me chocado com o que vi e ouvi na reportagem da TVI sobre o processo de reconstrução de casas em Pedrógão. O que vi a seguir também não me deixou mais tranquilo.

Da reportagem da Ana Leal registei a esperteza saloia que permite tirar partido do dinheiro dos contribuintes, mas também daquele dinheiro que foi enviado para Pedrógão tendo em conta a solidariedade dos Portugueses espalhados por todo o mundo. Esperteza saloia, compadrio e falta de vergonha.

Várias pessoas disseram na reportagem que foram incentivadas pelo Presidente da Câmara de Pedrógão, ao que sei ex-inspetor da PJ (reformado), a alterar a morada fiscal para poderem aceder aos donativos e outros benefícios e assim reconstruir palheiros, casas abandonadas, etc., como se fossem de primeira habitação. Foram beneficiados os familiares e amigos das pessoas da câmara municipal e das respetivas juntas de freguesia. Também li declarações atribuídas à Presidente da CCDRC (que não foram desmentidas) em que se dizia que a morada fiscal que se considerava era a da entrega do processo de candidatura a benefícios e não a que se verificava à data do incêndio. Se isto não é uma porta aberta à fraude, não sei o que é.

Tudo isto me deixa perplexo e chocado. Na reportagem aparecia ainda um casal idoso que perdeu tudo na sua 2ª habitação, que afirmava ser recebido com frequência pelo Presidente da Câmara, mas, mesmo assim, se recusou a mudar a residência fiscal. Na reportagem disseram que ouviram do vereador da câmara a seguinte frase: “os processos foram para Coimbra, foram aprovados, não podemos fazer nada“. Assumo que Coimbra significa a CCDRC.
Perante tudo isto, não vi uma atuação imediata das autoridades, suspendendo de funções as pessoas envolvidas e promovendo uma investigação urgente a todos estas gravíssimas acusações. Não é possível não querer saber, não reagir e não proteger o interesse público, o bom-nome do Estado e de todos os servidores públicos. Isso ainda me deixa mais envergonhado.

Acresce que o PM António Costa reagiu a tudo isto com ligeireza. Na verdade, questionado sobre a reportagem disse simplesmente: “Pelo que sei, do conjunto das nove denúncias, apenas duas são relativas aos fundos geridos pelo Estado. Li hoje que o presidente da Câmara de Pedrógão Grande vai pedir uma investigação. Já havia uma investigação anunciada pela Procuradoria-Geral da República. Investigações não faltam”.

É inaceitável que o PM não perceba, ou desvalorize, a enorme gravidade de tudo isto e não se empenhe pessoalmente em esclarecer, com a máxima urgência, todos os seus contornos. A ação política de total imoralidade denunciada nesta reportagem exige uma garantia enérgica do PM de que se empenhará na rápida descoberta da verdade e que fará de todo este caso, até pelos contornos relacionados com donativos dos Portugueses, um caso pessoal. Ao não o fazer, ao responder neste tom, com esta ligeireza e não colocando imediatamente o foco na exigência de decência do Estado, não tenho a menor dúvida em dizer que António Costa teve um comportamento que não é digno de um PM. De tudo retiro um enorme sentimento de vergonha e uma sensação de total discricionariedade e ilegalidade generalizada na relação dos cidadãos com o Estado. Não pode valer tudo.

Por fim, partilho convosco uma enorme preocupação. Se repararem no vosso recibo de vencimento, há um valor muito elevado que todos nós oferecemos ao Estado mensalmente. A reportagem “O Compadrio” da TVI sobre Pedrógão mostra como “alguns” tomam conta do dinheiro que não é deles. Com esta gente, sem princípios e sem noção de serviço público, não há forma de o país deixar de ter défice, apesar da enorme carga fiscal. Nunca chega. Nunca chegará. A reportagem da TVI mostra bem como é gravíssima a corrupção e amiguismo em Portugal. É altura de dizer BASTA.

Nota: pelo que conheço da Margarida Lopes, vice-presidente da câmara de Pedrógão, bem como de tudo que sobre ela me transmitiu o saudoso Jorge Bento, não acredito que tivesse algum conhecimento sobre o sucedido. Acredito não, tenho a certeza disso.

 

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Publicado em Opinião