Cartas da Bairrada

Albano Coutinho não era pessoa de expor demasiada subjectividade nas cartas da Bairrada, excepto a que vinha do seu cunho republicano e da afeição pelo desamparo alheio. Isso dá beleza e simplicidade, se me perdoam a redundância, às suas menções meteorológicas. Encetou 1886 nos seguintes termos: «Um frio siberiano que enregela a gente e faz […]

  • 7:15 | Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019
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Albano Coutinho não era pessoa de expor demasiada subjectividade nas cartas da Bairrada, excepto a que vinha do seu cunho republicano e da afeição pelo desamparo alheio. Isso dá beleza e simplicidade, se me perdoam a redundância, às suas menções meteorológicas. Encetou 1886 nos seguintes termos:

«Um frio siberiano que enregela a gente e faz esterilizar os campos, eis o cortejo que nos traz, na sua abertura, o novo ano agrícola. No entanto, o trabalhador dos campos moureja pela sua vida e vai convertendo em vinhedos prometedores o que até aqui parecia um pousio improdutivo. Fazem-se actualmente grandes plantações de bacelo na Bairrada, começando a acentuar-se a corrente de que esta localidade deve apenas ser uma vinha.»

A carta que escreveu em 6 de Janeiro de 1887 é, quanto a mim, ainda mais bela:

«O ano começa chuvoso e frio. As chuvas são proveitosas para a agricultura, favorecem o desenvolvimento das pastagens e dão águas para os trabalhos dos lagares, actualmente ocupados na moagem da azeitona. O frio incomoda, mas também traz benefícios à agricultura com as grossas camadas de geada que espalham pelo solo os sais amoniacais e fertilizam a terra. Começa, pois, o ano como deve começar; assim o Inverno seja benigno para se poderem fazer a tempo todos os granjeios nas vinhas e nas terras, e para que o trabalhador rural não tenha que sentir a falta de serviço para ganhar o pão de cada dia.»

As crónicas de Albano Coutinho, que ainda hei-de acabar de transcrever e publicar, estão cheias de encantadoras notas sobre a chuva, o frio, o calor e a seca. Ele deu forma a observações perenes sobre as relações entre a meteorologia e agricultura.

Mogofores, 16 de Dezembro de 1883:

«Grossas camadas de geada têm alastrado nestes últimos dias os campos da Bairrada. Toda a natureza vegetal se ressente do frio intensíssimo que nos assaltou repentinamente. Os lavradores começam a pedir chuvas para abrandar a temperatura glacial que está queimando as pastagens e enfezando os trigos e os centeios, ameaçando comprometer também as laranjeiras que já o ano passado sofreram enormes estragos com as geadas de Março.»

Passei parte da vida, sobretudo a que decorreu nos anos setenta, a escutar coisas parecidas, que nunca registei, nem calculava que tivessem valor. Albano Coutinho escreveu-as.

Nuno Rosmaninho

(Foto DR)

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Publicado em Opinião