Tréguas

por Alexandra Azambuja | 2014.08.01 - 12:24

 

O mundo arde.

Gente ordena diariamente a morte de outras pessoas pelos motivos de sempre: território, dinheiro, ou como quem diz, poder.

Assistimos aos conflitos povoados de corpos inertes como se fossem guerras digitais, o pó e o cheiro horrível barrados do outro lado dos ecrãns.

Não sentimos os soluços de desespero das mães sacudidas pelas perdas definitivas dos filhos, não sabemos na carne o que significam “efeitos colaterais”, vidas mudadas para sempre, dias sem sentido até ao fim das vidas.

 

Protegidos, num cantinho ainda seguro do mundo, estamos longe da barbárie, como se o mundo não fosse um só, como se ficando quietos pudéssemos escapar ao horror.

As pessoas decentes estão de braços caídos. É preciso, para ser cidadão de corpo inteiro, pensar cada gesto diário – se o que compramos provém da exploração de trabalho infantil, de produtos tóxicos, se vem de Israel, se incorpora agentes cancerígenos, se resulta da exploração de mão-de-obra tailandesa no Alentejo, se tem parabenos, se é comércio justo, se foi geneticamente modificado…

Existir tornou-se cansativo com a aldeia global a enfiar-se pelos olhos e ouvidos e poros dentro a cada segundo, soterrados que estamos em informação, informação deturpada, manipulada, parcial, tendenciosa, comprada por interesses económicos. Parece que só sendo polícias do mundo a tempo inteiro poderíamos estar a fazer a coisa certa…

 

Na pequena esfera da família, ou do grupo de amigos e conhecidos, na esfera profissional ou da terra onde vivemos, na região ou país, um conjunto de pequenas tréguas é preciso para que o tempo não nos esmague na roda dentada da História de agora, um período que ficará provavelmente conhecido pela adoração ao Rei das Compras.

Daqui a muitos mil anos quando escreverem que as pessoas trabalhavam como escravas para terem mais papel-moeda para poderem comprar o que não precisavam de facto, de forma a poderem parecer quem não eram de verdade, apenas para se sentirem mais importantes que a pessoa do lado, para quem encenam a farsa da inacessibilidade importante, nessa altura quem nos sobreviver talvez pergunte como foi possível? Da mesma forma que nos interrogamos agora sobre o feudalismo e de como foi possível a servidão condenar quase todas as vidas à labuta dos servos…

 

 

Pois bem.

Não há “coisa certa”.

O mundo precisa de tréguas e não é só o mundo lá fora, o mundo lá longe.

Todos nós – vítimas por arrasto de uma época brutal e massificadora – precisamos de tréguas.

 

Que as coisas simples se mantenham simples. Que as coisas de dimensão humana perdurem.

Que se possa ser diferente sem que isso signifique um ataque ao outro.

Que se possa existir sem que para isso alguém tenha de desistir.

Que o mundo e os dias se desenrolem como podem ser, no tamanho das horas que contam, no significado que podemos construir dentro dos nossos dias existindo também por e para os outros.

Que acrescentemos belas coisas ao mundo, um credo pagão de pequenos gestos anónimos e pouco importantes, que ajudemos quem mais não pode, que adoremos a Arte e a Beleza em vez de coisas.

Que façamos das nossas vidas, todos os dias, vidas com sentido e disso façamos um desígnio.

Sem tréguas.