Requisição civil? Sim, com eleições à bica…

por Jéssica Ferreira | 2019.08.16 - 10:06

O “João” regressa de mais uma viagem semanal de trabalho para estar junto da sua família. Ao circular numa autobahn alemã, já cansado, entendeu que deveria parar numa área de serviço e repousar 8 horas, as horas legalmente determinadas.

Contudo, devido à pressão dos patrões e ao “fuso horário de cargas e descargas”, leva um cartão dum amigo, ou coloca o chamado “íman”.

E o João continua a conduzir, o cansaço já o atormenta, mas se continuar a circular, mais rápido chega a casa, mais quilómetros faz nesta semana, e mais receberá no final do mês, para além do ordenado base de 700 euros, sendo o resto “dissimulado”, uma notas gordas, que empobrecem as finanças e enriquecem a entidade patronal.

O João nessa noite não parou para descansar, não comeu a sua baguette de atum. Os cigarros, a coca-cola e as pastilhas foram a sua companhia. 

O inevitável aconteceu, o João adormeceu, o camião caiu por um penhasco. O João ficou muito maltratado, precisou de ficar em casa alguns meses, mas como o seu salário ficcional é de apenas 700 euros, tem direito a um subsídio por doença de 400 euros/mês, que não faz face às suas despesas mensais, serve apenas para pagar o empréstimo da habitação.

E sim, eu sei que os camionistas de matérias perigosas não são camionistas de pesados. Contudo é o que se passa no mundo dos camionistas, em geral.

 Vamos pensar!

Os camionistas de matérias perigosas reivindicam uma categoria própria, visto que não são motoristas de veículos pesados, mas sim de matérias perigosas; pedem uma actualização do subsídio de risco; alteração de regras ao salário nocturno e ao trabalho extraordinário.  No fundo, pedem uma actualização do contrato colectivo.   

Para isso travam uma dura guerra contra a “ANTRAM”.

Na Constituição da República Portuguesa e no Código de Trabalho, a greve caracteriza-se por ser uma abstenção colectiva da prestação de trabalho num determinado sector, embora não haja uma regra quanto ao número de trabalhadores envolvidos de trabalhadores subordinados.  Todavia, há limites para não passarmos para uma greve ilícita, é preciso assegurar, bem como cumprir os serviços mínimos indispensáveis para ocorrer a satisfação de necessidades impreteríveis.

Todos os camionista neste momento em greve cumpriram todos os serviços mínimos. Eu conduzo o meu automóvel diariamente e nunca tive nenhum problema de escassez de gasóleo, mesmo que só possa usufruir de 15 litros de cada vez, ambulâncias, bombeiros todos os serviços considerados prioritários nem sentiram a greve, eu não ouvi nem vi ninguém queixar-se de tal.

Porquê a requisição civil?

Porque a falta de combustível gera perda de riqueza de País, são turistas que deixam de visitar Portugal, é a privação de poder fazer 100 kms para ir à praia, é a economia do País que abala.

Não obstante, o Governo do PS foi excessivo, foi desnecessário na acção, pois uma greve é para criar impacto, criar constrangimentos, para pressionar o patronato a cumprir com as exigências básicas…

O camionista tem esse direito, tal como os enfermeiros, os professores, os funcionários judiciais, os notários, os magistrados…

Antes dos camionistas foram os enfermeiros e o que aconteceu? Consultas desmarcadas, cirurgias adiadas, filas de espera nas urgências… Aliás quando foi a greve dos enfermeiros eu estava nas urgências e faleceu nos corredores, de tanto esperar, uma senhora idosa. Ainda hoje ouço os gritos da filha…

E depois o que fez António Costa, chamou enfermeiros desempregados, pagou-nos uma consulta num hospital privado? Não.

Quando se fala em Vida é uma coisa, mas quando se fala em Dinheiro é outra!!!

Tanta greve que houve no Governo do PSD e nunca se falou em “requisição civil”, nem nunca tinha ouvido falar em requisição civil, a não ser em caso de guerra e declarado estado de emergência. Porém, o PS acérrimo defensor da greve, impõe a requisição civil…

Eleições à porta, incoerência e… muitos interesses envolvidos.

Jéssica Ferreira

(Fotos DR)