Podia ter sido pior…ou deveria ser melhor?

por Maria Sobral | 2013.11.28 - 18:12

 

Admiro o português, o típico e bem delineado português, o resiliente, capaz de aturar e absorver com uma dignidade e perseverança hercúleas. Há coisas que nos definem totalmente, mas por hoje prefiro e quero destacar duas que são lendárias…a capacidade inata ou genética de deixar algo para o último minuto (quando na verdade não há nada que nos impeça de o fazer antes), e um gritante otimismo face a tudo e a todos.

Nenhum habitante deste planeta aplica a frase “podia ter sido pior” nas mais absurdas situações, como via para declarar esse otimismo latente e espalhá-lo aos demais. Estas duas capacidades históricas e estoicas podem ser sem dúvida, o resultado de uma necessidade tremenda de nos expor frequentemente ao nosso pior com o intuito único de o nosso melhor nos saber extraordinariamente bem. Senão porque outra razão nos levaríamos sempre ao limite para em seguida comemorarmos euforicamente? É-nos intrínseco prolongar o sofrimento para que o júbilo seja extenso, intenso. No fim lá nos sai um: “Podia ter sido pior…podíamos não ter conseguido! Mas assim soube muito melhor!”

Mergulhados em crise, fartos de cortes e austeridade; mas sempre exageradamente otimistas com um qualquer número de uma qualquer estatística trimestral…e lá nos sai um: “Podíamos estar pior!” Quase, quase a não ir ao Mundial, mas vai que no último momento, na última oportunidade, conseguimos, e é verdade, soube melhor! Exemplo nítido de como as duas características citadas andam de braço dado, quase atado: sofremos até à última, rebentámos em manifestações exacerbadas de alegria, e, com otimismo em profusa marcha acelerada, os golos do Ronaldo são seguidos nos blocos noticiosos pelos valores em milhares de milhões que essa nossa participação significará, com publicidade, prémios e afins. É um sebastianismo consequente, recorrente.

Em termos do abalo económico, leia-se crise novamente, não somos tão assertivos nem dedicados como os Irlandeses, muito menos somos tão desesperados e trágicos como os Gregos, podíamos ser piores…podíamos ser melhores…mas somos apenas diferentes, somos portugueses. Deveríamos ser melhores sim, deveríamos tentar não esperar só que não fossemos os piores, mas e no fim? Seria melhor, ou simplesmente saberia pior?

Geóloga por graduação e afeição telúrica natural. Formadora na Escola Profissional de Sernancelhe. Técnica dinamizadora do Centro Interpretativo Aldeia da Faia. Promotora de consciência ambiental e cultural.

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