O sentimento do medo

por Nuno Rosmaninho | 2019.12.12 - 17:23

Embora pareça estranho e eu não possa verdadeiramente explicar, esta nota é sobre o sentimento do medo e nasceu de uma troca de cartas entre Belisário Pimenta e António Sérgio. Sinto deveras não conhecer essa correspondência, preso que estou à luz que vem do diário do coronel. Há quase vinte anos, quando digitalizei os milhares de páginas dos seus cadernos pessoais, também seleccionei algumas cartas. Ainda fui, sem esperança, à pasta do epistolário. Lá encontrei missivas de António José de Almeida, Raul Lino, Vitorino Nemésio, Reynaldo dos Santos, Afonso Lopes Vieira e outros, mas não de António Sérgio. Fica assim incompleto o sentimento do medo.

Em fins de Abril de 1943, António Sérgio agradeceu a oferta de um exemplar do ensaio intitulado Camões e as artes bélicas e, «como sempre», referiu Belisário Pimenta, «notou coisas», nomeadamente sobre o sentimento do medo em Camões. Belisário Pimenta respondeu-lhe com a promessa de «escrever qualquer coisa sobre o assunto».

No dia 27 de Maio, chegou outra carta de António Sérgio, que tinha apensa a «folha dum jornal com um artigo acerca do medo». Se interpreto bem a pontuação, o recorte pertencia ao Jornal do Comércio, de Lisboa, e continha um excerto do artigo A psicologia do medo, extraído do Daliy Express, de Londres. Meticuloso, Belisário Pimenta guardou-o na «colecção de recortes». Se tivesse tempo, esquadrinhava este acervo. Mas isto não passa de um simples apontamento para três pessoas lerem.

Belisário Pimenta informa-nos, com a sua caligrafia redonda e legível, na página trezentos e trinta e cinco do diário dos anos de 1937 a 1943: «Achei curioso ele não se esquecer da observação feita. É claro que lhe escrevi logo a agradecer e, na verdade, fui sincero no agradecimento.»

Estas linhas traduzem uma curiosidade insatisfeita. Sob que ângulo se discutiu o sentimento do medo? É o medo que vem da guerra? Da doença? Da velhice? Não, certamente, aquele que levou Primo Levi a perguntar se isto é um homem. Faltam quase sete meses para ser preso, nove para entrar em Auschwitz e menos de cinquenta para conseguir escrever o seu testemunho inolvidável.

Nuno Rosmaninho