O orçamento participativo de Leiria

por Alexandra Azambuja | 2014.10.17 - 09:00

 

 

Terminou a votação para os projectos a concurso ao Orçamento Participativo de Leiria para 2015. O meu projecto morreu na secretaria fruto do crime de contemplar “serviços” para além de aquisição de bens. É tudo uma questão de regulamentos e contabilidade. O objectivo, esse, não interessa para nada.

 

E que objectivo terrível era o do projecto “Mais Filosofia, menos Prozac”? Contribuir para a construção do espírito crítico nas crianças de Leiria. Para que por exemplo os adultos em que se tornarão achassem estranho que os dois maiores partidos se entreguem na cidade a quezílias. O PS na guerra fraticida das eleições internas e na peleja jurídica que o consome – para apurar quem venceu afinal a distrital- enquanto o PSD convida e desconvida a ministra das finanças e Marcelo Rebelo de Sousa para um jantar comemorativo dos 40 anos. Pelo menos a fazer fé no que vem nos jornais…

E eu que pensava que os partidos serviam para propor caminhos, soluções, para servir eleitores, cidadãos. .. Para pensar a coisa comum que é a cidade, para colocar ao serviço de todos a sua visão do mundo, para organizar, congregar, fazer, propor, pensar. Eu pensava que os partidos existiam para servir o exterior, para reunir os mais qualificados. Eu pensava, pensava, mas se calhar pensava mal.

Depois de ver a cidade – a tal que está em nº 2 do ranking nacional – cheia de problemas para resolver, estatelo-me na mesma semana com as notícias de que os partidos num ataque de umbiguismo inusitado estão demasiado ocupados a olhar para dentro de si próprios deixando cá fora a vida real, os problemas dos concidadãos, o urbanismo, o trânsito, a economia, a descentralização dos serviços, a burocracia nos licenciamentos, tudo quando afecta a vida de todos nós.

 

Mas sim, talvez esperar que os partidos façam os seus trabalhos de casa seja como acreditar em fadas – uma coisa poética, mas pouco sensata.

É por isso que projectos para a construção do espírito crítico servem, entre outras coisas, para encher os partidos de gente com capacidade de pensar, entre muitas outras coisas.

Mas no mundo real, os projectos ao orçamento participativo não podem fazer isso, porque devido a alíneas e a rubricas contabilísticas, só se podem pensar projectos que se resumam a comprar coisas. Relvados de futebol, ou casas de banho, mas coisas. Coisas que figurem em inventários. Serviços não. Serviços é uma coisa poética. Não ficam inscritos na rubrica certa da contabilidade. Serviços são coisas vagamente revolucionárias. Perigosas quem sabe…

É pois por isso que o meu querido projecto, que previa a oferta às escolas primárias de Leiria de Livros de Filosofia para crianças, uma peça de teatro de marionetas para introduzir o tema e ainda – imagine-se a ousadia – formação para professores, chumbou, nem chegando à votação popular. Tinha serviços. E ter serviços é quase tão perigoso como o Ébola num projecto candidato ao Orçamento Participativo: mata.

 

Posto isto, o que podemos fazer pela construção do espírito crítico para as crianças em Leiria? Mandá-las para Óbidos onde a Escola Municipal já oferece como actividade a Filosofia para Crianças como actividade para aprender a pensar? Não parece muito sensato. As crianças que aprendem a pensar podem tornar-se cidadãos com espirito crítico.

E agora imaginem lá o que seria Leiria cheia de gente que achasse estranho os dois maiores  partidos da terra ocupados em quezílias internas? Uma coisa do outro mundo não?

Pensando bem mas que mania parva perder tempo de férias a construir um projecto para o Orçamento Participativo! Deixa-me mas é descobrir em que canal passa e a que horas a tal da Casa dos Segredos, a ver se finalmente percebo do que falam no café as pessoas na mesa ao lado…

 

 

Cartoon de Zé Oliveira