O corno

por Rufino Fino Filho | 2014.03.02 - 10:54

O Gaspar casou com uma lasca do caraças e toda a gente pensou “Como é que este gajo arranjou um peixão destes?” A garota, 22 (como escrevem os brasileiros) tinha classe, tinha “applon”, tinha um corpo de fazer parar o SudExpress, tinha tudo, e, até tinha, uma cambada e babosos a deitar água pela boca quando passava a bambolear os glúteos pela rua. O Gaspar também tinha alguma coisa que se visse: tinha mais 15 anos, tinha um trabalho mal pago, tinha uma catráfia de dívidas ao banco, tinha chatices na vida dele que chegavam, e, tinha a garota.

Apesar de tudo a coisa correu bem. Tiveram dois putos, tiveram mais dificuldades que foram aguentando, tiveram sempre muitos amigos à sua volta e tiveram também muitos invejosos à cata duma distracção do Gaspar para palmar a pequena.

Na verdade, e, apesar de tudo, com uma evidência por todos reconhecida, a vida do casal melhorou substancialmente. O único penedo no caminho da felicidade familiar eram os ciúmes doentios do Gaspar.

Nesta coisa de ciúmes, as coisas complicam-se e podem tramar uma pessoa. A vigilância foi-se apertando e, o Gaspar, começou a aparecer a horas desusadas em casa sempre com a secreta esperança de que tudo não passasse de uma doença crónica sem razão, na sua cabeça.

Um dia, chega a meio da tarde e surpreende, por uma nesga da porta entreaberta, a mulher, opulenta balzaquiana, na cama com outro.

Desvairado, louco de dor, uma dor surda que não o deixava respirar, corre à garagem, mete dois cartuchos na caçadeira e regressa silenciosamente. “Um tiro”, pensava, “um tiro e mato os dois”. Cuidadosamente, para não ser ouvido pelos amantes armou o gatilho e meteu os canos da arma pela frincha da porta. Apontou para a cama e, lá no fundo, mesmo à frente do ponto de mira, vê o corpo nu, macio e desejoso da mulher. Faltou-lhe o ar e parou. Na cabeça passou, aceleradamente, a vida em comum. Foi-se lembrando de como a sua vida de casado havia melhorado nos últimos tempos. Como tudo corria bem! A esposa já não pedia dinheiro para comprar carne, aliás, nem para comprar vestidos, jóias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma jóia nova ou umas sandália da moda. Os garotos até tinham mudado da escola pública do bairro para um colégio particular. Sem contar que a mulher trocou o velho Fiat por um Alfa Giullieta, apesar de ele estar há quatro anos sem aumento e ter cortado a mesada dela. Do supermercado, então, nem se fala: eles nunca tiveram tanta fartura na mesa quanto nos últimos meses. E as contas de luz, água, telefone, internet, telemóvel e cartão de crédito, há muito tempo que ele nem ouvia falar delas.

Até ela, estava cada vez mais bonita, mais brilhante, com a pele mais macia. Era um avião, toda boa, gostosa. Mesmo com dois filhos o tempo não passava por ela, era coisa de louco.

Lentamente, retirou a arma da porta entreaberta, e, com muito cuidado para não ser ouvido, foi saindo devagar, para não atrapalhar o parzinho. Na porta da sala parou para reflectir um pouco e disse com os seus botões:

– O gajo paga o aluguer da casa, o supermercado, a escola das crianças, as contas do cartão de crédito, o carro, o supermercado e todas as despesas. Depois, ainda vou para cama com ela todos os dias! O que é que eu ia fazer?

E, fechando a porta atrás de si, saiu de casa.

Na rua, encontrou a Vilastina, uma amiga e confidente de longa data e, entre um lamento e um suspiro de alívio, conta-lhe a peripécia.

Ela, distante dos amores e desamores e com a clarividência de uma mulher independente e farta de conhecer as coisas deste mundo, atira-lhe:

-Gaspar! Relaxa, pá! Puta que pariu o tipo! O CORNO É ELE!!!!