O BOM DO PADRE JOAQUIM FRANCISCO RIBEIRO – PAI DE AQUILINO

por Alberto Correia | 2016.09.09 - 10:11

 

Bosquejo ainda ninguém fez, inteiramente, pelos caminhos que trouxeram o bom do padre Joaquim Francisco Ribeiro, pai de Aquilino, ao Carregal. Não sabemos da sua formação no Seminário da diocese, esse formoso casarão estendido ao longo do Rio Coura, em Lamego, que o seu filho terá tido pejo de ofender quebrando-lhe os vidros das janelas com os calhaus com que o Velhinha lhe terá carregado os bolsos numa noite revolta de pouco mais que adolescente. Não sabemos de paróquia em que tenha sido colado antes de ser transferido para o Carregal, no concelho de Sernancelhe, onde realiza o primeiro baptizado a 20 de Janeiro de 1879 e onde substituirá o anterior abade, de nome João Sobral, velhinho e gasto, a crer na letra incerta dos Assentos. E ali cumpre sua missão de pastor de almas, nada fácil esta guarda, que estas pobres almas mais facilmente que as ovelhas dos pastores da terra se transviam pelos vagos caminhos da doutrina aprendida de ouvido nas breves homilias de Domingo. E por ali ficará longos anos, abade, como se titula, até meados de Março de 1895.

O padre Joaquim presidirá ainda, por muitos anos, à Junta de Paróquia, cuidando assim de assuntos do cível e desse bem-estar na Terra dos Homens onde lhe riscava, aos homens seus irmãos, caminhos de pedra e areia, conduzia ribeiros, abria minas para fontes, protegia baldios que forneciam lenha de fornos e pastagem de gados e era idêntico o empenho que colocava nessa missão e nessa outra da cura das almas, para estas reclamando a bem-aventurança na hora da derradeira despedida, que bem a mereciam, coitados, esses fregueses crentes e lutadores, mas o chão que pisou com seus irmãos, nunca por ali chegou a tornar-se paraíso, nunca mais, até dias de hoje, ausentes sempre os profetas, mentirosos sempre os pregadores de doutrinas, ontem como hoje.

O bom do Padre Joaquim não tinha culpa. Feito do barro de Adão, como todos nós. Talvez se sentisse feliz quando cavalgava por solitários caminhos de Cristo a égua Inácia que lá o levava com branda rédea. E era decerto feliz quando se sentava na banca armada na toca de um castanheiro desse quintalejo mimoso que era o Codessal onde a água corria meio cantante e de onde o vento da tarde levantava pesares, o filho sentado nos joelhos quantas vezes, “o meu Aquilino”, que estremecia decerto, que isso sabemos, sofrido e ansioso que ficava ao vê-lo partir por esses mundos de ninguém, mais dessa vez em que o pressentiu por detrás das grades de uma prisão, inquietos ele e sua mãe.

Obediente ao seu bispo aceita o temporário encargo de paroquiar, sem abandono do Carregal, a paróquia do Granjal onde se demora por três anos e meio, entre 24 de Janeiro de 1888, quando ali faz o primeiro baptizado e o dia 12 de Julho de 1891 quando ali põe os Santos óleos sobre a cabeça de um último neófito.

Nos meados do mês de Março de 1895 regressa à sua terra, a Soutosa e aí vai morrer, que os 75 anos de vida e os cerca de 50 de ministério o haviam gasto. Ficava a morar na casa que agora também lhe pertencia Mariana do Rosário, a mãe desse filho cujo destino jamais puderam compreender, Mariana do Rosário entregue a curtas lavouras, à saudade de uma filha que morrera ainda menina, cuidando do rapaz mais novo que permanecerá com ela, até se casar, em continuadas ânsias porque o filho mais velho às vezes o vê aos tombos como se batido do vento. Mariana do Rosário que teve ainda a feliz sorte de conhecer os seus netos.

Voltando ao bom do padre Joaquim Francisco Ribeiro. À sua memória. Não restou pedra gravada na campa do cemitério da Soutosa onde pousou. Epitáfio o filho tão só lhe desenhou, quase sobre a hora dessa última viagem, no rosto de um livro que amorosamente lhe dedicou. Lição de amor contida em “A Via Sinuosa”!…